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Às vezes é engraçado pensar no tempo. No tempo que passou e que não volta, na ausência que ele causou, nas pessoas que ele afastou. É engraçado pensar naquela velha ideia de que o tempo cura tudo, e ser um exemplo vivo de que o tempo nada cura, nada apaga. Se apagasse, hoje não haveria mais você. Hoje não haveria mais eu, novamente, escrevendo sobre você. Eu tenho pensado bastante em nós dois Não… Eu tenho pensado bastante em você e em mim, porque não há nós dois. Há eu e há você. Separados. E essa palavra tão junta, com vogais e consoantes que parecem inseparáveis, e que se casam tão perfeitamente, começa a fazer sentido.

Eu também tenho pensado em te escrever, te ligar… Mas isso seria idiotice de minha parte, uma vez que agora mesmo você está sentado na minha frente, me encarando com esses seus olhos tão profundos e intensos que outrora me cativaram tanto. É estranho pensar que basta apenas uma palavra minha para que esse silêncio se quebre de uma vez por todas, e sua voz destrua todas as muralhas que tornei a construir em volta do meu coração.

Você suspira, brinca com o montinho de areia abaixo de nossos pés. Puxa alguns fios da toalha de praia, desvia o olhar para um casal que passa de mãos dadas, e então volta a me olhar. Aquele sorriso desconfortável volta a brincar em seus lábios, e aquele seu jeitinho maroto de entortar os lábios ainda faz meu coração estremecer dentro do peito. Eu me pergunto se você ainda é capaz de perceber as reações que me causa. Eu espero que a resposta seja que não. Espero que você tenha perdido esse seu poder irritante no mesmo momento em que me perdeu. Pensar nessas coisas faz com que um riso baixo escape sem querer da minha boca.

— Qual é a graça? — Você interrompe meus pensamentos, e aquela vontade doentia de gravar o timbre da sua voz dentro de mim reaparece.
— Meus pensamentos. Meus pensamentos são sempre engraçados quando se tratam de você — Respondo dando ombros, vendo um misto de confusão e curiosidade se formar em seu olhar.
— Por que não compartilha eles comigo?

E como pretende que eu faça isso? Que eu diga que por um momento penso que você me perdeu, mas que no segundo seguinte estou rindo por me dar conta de que você, mesmo que contra sua vontade, continua tendo a maior parte de mim? Não, não a maior. Você me tem por inteira, completa. Cada migalhinha do meu ser foi entregue a você, destinada ao teu nome e sobrenome, a tua possessividade. Cada pedacinho desse corpo, dessa alma, todo meu ser faz questão de pertencer a você e a mais ninguém. Então, como é que eu posso dizer que você me perdeu? Não, como é que você pode dizer isso? Pensar isso?

— E o que eu ganho compartilhando-os com você? — Questiono.

(Silêncio.)
(Você volta a brincar com a areia, e desvia seu olhar do meu. Não para de me olhar, por favor. Deixa eu continuar perdida nesse castanho caramelado que me envolve, me enfeitiça, me faz ter vontade de dizer tudo que continua sufocado, tudo que meu lado racional e orgulhoso me impede de falar.)

— Você ganha o que você quiser ganhar, pequena — Discordo mentalmente. Discordo sabendo que tudo que eu quero, é tudo que eu não posso ter. Tudo que um dia eu tive, mas que hoje me parece tão distante, inalcansável. Discordo sabendo que ganhar você é utopia, é fantasia de menina que como princesa, permanece no alto da torre esperando por um príncipe que ficou encarregado de chegar trazendo consigo uma espada e um final feliz… E você sabe, eu cresci. Eu tive que crescer e entender que a única coisa que você me traz toda vez que chega, é um adeus.

— Não é uma boa ideia te contar o que se passa dentro dessa mente insana e masoquista.
— Mas se você contar, te deixo conhecer a mente de um inseguro orgulhoso — Você completa. Sua voz séria me faz repensar e repensar e repensar, para então ceder.
Eu estava pensando que você me perdeu — As palavras saem atropeladas, embaralhas em um sussurro rouco e mórbido que logo se perde e dá lugar ao som das ondas morrendo na praia.

(Silêncio. Novamente.)
(Sinto vontade de completar minha fala e dizer que não, que você não me perdeu. Que aquelas nossas brigas, discussões, separações… Que nada daquilo fez com que você deixasse de me ter.)
(Mas aí eu lembro que ao contrário de você, que ainda me tem… Eu já não te tenho. Você já não me pertence.)
(Eu realmente te perdi, não é?)

— Eu realmente te perdi.
— Não, você sabe que não me perdeu, pequeno — Respondo imediatamente, tentando controlar o desespero que se agarra em minha voz urgente e alta.
— Não foi uma pergunta — Você se afasta, se inclina para trás e fita o céu azul acima de nós dois. Acima de você e de mim, me corrijo.
— Então eu devo dizer que foi uma afirmação incorreta.

Eu penso em te dizer que essa distância me incomoda. Me destrói.
Não, não essa distãncia curta e breve que separa meu corpo do teu.
Me refiro a essa distância que cresceu e se estabeleceu entre o teu coração e o meu.

Faz tempo, não é? — Você desconversa, dando ombros e apoiando o rosto nos joelhos.
Tempo… Algo tão relativo.
— Quem define tempo como algo relativo?

Alguém que já não entende a definição correta, dada pelo dicionário. Alguém que se perdeu entre as noites e os dias, que não se encontra no meio das vinte e quatro horas, ou devo dizer doze? Alguém que não consegue dizer se foi há cerca de um ano ou há cerca de um mês, quando as coisas ainda faziam sentido. Quando o tempo ainda era importante. Você não entende que meu tempo é relativo, porque você não entende que meu tempo se baseia em você. Meu tempo são os minutos que duram os seus diálogos. São os segundos preenchidos pelo som doce e sonoro do seu riso, que faz meu coração parar por um milésimo de segundos. Meu tempo é o passar arrastados dos dias em que teu nome é só uma vaga lembrança. Meu tempo se faz presente apenas na sua presença, e engraçado que nessas ocasiões meu tempo se esvai tão rápido… E aí, você se vai e meu tempo… Meu tempo para. Meu tempo se vai com você.

— Não importa — Afirmo, sabendo que explicar que a relatividade do meu tempo é consequência das suas idas e vindas, seria como permanecer em silêncio — Mas, de que tempo estamos falando?
Daquele tempo passado, que envolvia eu e você. Daquele tempo que o seu sorriso sincero era a primeira coisa que eu via ao abrir os olhos, e a sua voz era a trilha sonora de todos os meus dias. Daquele tempo que eu sabia que você era minha, e eu não me importava em ser seu. Eu não tinha medo de ser seu. Daquele tempo que agora eu sinto tanta falta.

Suas palavras, uma a uma, se agarram no meu interior. Eu pisco uma, duas, três, inúmeras vezes esperando ver o mar ao fundo, mas tudo que vejo é você. Tudo que vejo é essa realidade assustadora que me garante que cada palavra que há pouco escapava pela tua boca, não faz parte de apenas outro sonho meu. Aquele tempo ainda parece tão, tão recente. Tão presente. Mas meu lado frio, sensato, meu lado que ainda luta para não se entregar a você me faz lembrar que não, que já faz tempo. Que já faz tempo que eu e você éramos nós… Que depois desse tempo, tudo que restou foi a exaustiva espera.

O que isso quer dizer?
— Quer dizer que é esse tipo de coisa que se passa na cabeça de um orgulhoso inseguro.

Eu quero perguntar se isso muda alguma coisa.
Se o fato de você sentir falta do mesmo que eu, talvez seja o suficiente.
Mas eu sei que não é. Entre você e eu, suficiente é uma palavra insuficiente. Que não basta.

— Então, você tem razão… Faz tempo, muito tempo.
— Quer saber o que mais se passa aqui dentro? — Você pergunta e sua voz tão baixa e rouca de repente parece uma enxurrada de dor, de sofrimento. Eu penso em dizer que não, que não precisa… Mas você não me dá tempo, nunca deu — Essa cabeça insegura e orgulhosa também não deixa de pensar que teve tanto, tanto tempo para colocar esse amor em primeiro plano e correr atrás de você. E ela, nem por um segundo, deixa de se culpar por não ter feito isso.

Talvez ela tenha feito. Um pouco tarde, quem sabe. Ainda assim, você se atrasou, não é? Você não percebeu que eu estava aqui, atrasando os ponteiros do relógio, dando passos largos e maiores do que eu poderia para trás, para perto de você. Você não percebeu que aquela garota parada, imóvel e que não conseguia reunir forças para sair do lugar era apenas eu. Era eu esperando por você. Desde aquela sua partida, desde aquele seu adeus tão mal interpretado pelo meu coração que mesmo machucado, ainda esperava por você. Você se perdeu no seu tempo que avançava com pressa, e eu me encontrei na minha lentidão exaustiva, que cansada de repouso, precisava avançar. E foi aí que você me perdeu. Foi aí que você deveria ter me perdido. Para sempre, definitivamente. Mas não, isso não aconteceu na prática.

(Isso não aconteceu e não vai acontecer.)
(Não enquanto você continuar me perdendo, para depois me ganhar de novo.)
(E você sempre, sempre me ganha.)
(Você me ganha tão facilmente.)

— Mas isso não importa mais, não é? Acabou — E dessa vez são as minhas palavras que transbordam toda dor que eu carrego.
— Eu sinto sua falta, e você não tem ideia de como sentir isso fode com as minhas tentativas de fazer a coisa certa.
— Mas acabou — Repito. Você balança a cabeça em sinal de negação, esticando a mão e agarrando a minha, para então segurá-la com força. Você respira fundo e deixa o ar escapar diversas vezes, e seu olhar magnético que se mantém preso ao meu faz meu coração bater desajustado dentro do peito. Fazendo aquele agito estranho surgir novamente em meus estômago, como era antigamente. Como nunca deixou de ser.
Não acabou — Você sussurra e suas palavras, sem nenhum aviso prévio, fazem toda a minha bagunça interna parecer organizada, como se nunca houvesse algo errado. Como se nunca houvesse medo, inseguro, vazio. Essa sinceridade que se desprende da sua voz e me atinge me maltrata, me corrói, me faz querer soltar da tua mão e gritar que não é pra ser assim. Que não pode ser assim. E eu tento, tento com todas as forças me afastar e impedir que mais uma vez, você me deixe fraca.

Eu luto contra essa vontade de ceder e repito. Repito que acabou, meu amor. Você sabe que acabou. Você sabe que esses sorrisos e risos, que esses olhares apaixonados e cúmplices não sustentam, não são capazes de cruzar essa distância fria e dura que diferente de nós, não acaba. Parece não ter fim. Acabou no momento em que você resolveu que era melhor deixar de lado as suas vontades, porque elas pareciam erradas. Naquele mesmo momento em que eu cansada de esperar por você, de lutar e de insistir, finalmente desisti. O que acabou não foi o amor, não é? Não foi a vontade de construir uma vida do seu lado, não foi a vontade de poder chamar você de meu, e de ser a causa e consequência de toda sua felicidade. O que acabou foram os motivos para fazer isso funcionar. Foi a força, a coragem, a vontade de tentar só mais uma vez. Você sabe que acabou. Eu repito. Repito e não aceito, não me convenço.

(Eu sei que acabou.)
(Mas isso não significa que eu aceite.)
(Não significa que eu acredite.)

— Como você pode saber que não acabou? — Pergunto sabendo que até uma simples palavra como resposta, já é o suficiente para me convencer de que não chegamos ao nosso fim. Sua mão continua entrelaçada a minha, e seu corpo se arrasta devagar para frente, acabando com nossa distância.
— Sabe o que eu pedi semana passada, enquanto todos comemoravam o ano novo? — Seu hálito fresco que ainda se parece com hortelã me deixa com ainda mais vontade de aceitar suas palavras, de me render e parar de fugir. E eu percebo que é inútil. Inútil resistir a você, e a minha vontade de dizer que não, não acabou. De dizer que continua sendo você, e que não vai deixar de ser.

Você me deixa fraca.
E a minha fraqueza, no meio de todo meu silêncio, parece gritar.
Gritar que não, não acabou.
Não vai acabar.

— O que isso tem a ver? Por favor, não desconv…
— Shhhhh — Você pede por silêncio. Seu dedo indicador parando diante de meus lábios enquanto um sorriso ainda meio escondido surge nos teus. Eu me sinto perdida, confusa, sem direção. O que você quer dizer? — Eu fiz o mesmo pedido 6 vezes… Nas seis primeiras ondas, sabia?
— E o que você pediu?
— Pedi que eu estivesse certo sobre o sétimo pedido — Mais uma vez, você intensifica o aperto em minha mão, mas logo em seguida seus dedos se abrem, e novamente eu penso em me afastar. Eu não me entregar a suas palavras, a você. Mas já é tarde, tarde demais para negar que eu ainda preciso de você. Que nossos dedos ainda se encaixam perfeitamente. Eu entrelaço minha mão a tua novamente, impedindo que você as separe.
— E qual foi o sétimo pedido? — Pergunto depressa, sentindo todo meu interior queimar em ansiedade.

Penso em dizer que aquele meu pedido de natal, durante nossa última ligação, foi você. Que nunca deixou de ser você. Mas no momento, suas palavras me parecem infinitas vezes mais importantes.

— Eu pedi para que eu estivesse certo
— Certo sobre? — Você inclina seu corpo na direção do meu, aproximando sua boca da minha e me deixando sentir sua respiração quente e desregulada bater em meu rosto. Você volta a falar e sua voz baixa e calma parece tão tangível, que quase posso sentir suas palavras beijarem meus lábios.
— Se não fosse o nosso fim, você não soltaria da minha mão.

(Você curva seus lábios em um sorriso.)
(Um sussurro involuntário que contém a minha voz te dá razão. Não é o fim.)
(O mar parece ficar mudo. O mundo parece ficar quieto, paralizado.)
(Não existe nada.)

Só eu e você.
Só nós.
(belovesick)


#belovesick  #27  
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belovesick:

Quando você me deixou e me mandou seguir em frente, eu esperei que meus passos obedientes seguissem à diante, mas, meses depois, eles continuam parados no mesmo lugar. Eu gostaria de saber como mudar isso. Madrugada de terça feira chuvosa, fria, vazia… E eu aqui, sentada naquela nossa mesa isolada das demais, encarando os rostos desconhecidos que afogam suas mágoas em doses e mais doses de bebidas que acalentam tamanha solidão. Eu ergo meu rosto cada vez que aquele maldito sininho pendurado na porta ecoa pelo bar, na esperança de ver você chegando com aquele seu sorriso que grita: Desculpa, meu amor… Eu sei, eu me atrasei de novo, mas isso não vai se repetir. Lembra quando você disse isso naquele fim de tarde? Você disse que ia dar o seu melhor para parar de se perder no tempo, mas acho que acabou esquecendo-se disso em algum momento. São 02:35 da madrugada, e você está atrasado a 137 dias, meu amor. Você ainda pretende voltar? Porque se a resposta for sim, eu te espero. Continuo aqui sentada na nossa mesa coberta por bilhetes rabiscados na madeira clara, e uma dose de vodka esquecida. Eu continuo aqui sentada esperando você chegar correndo pra me contar sobre o seu dia, pra reclamar da sua falta de disposição, pra te ouvir choramingar e pedir para que eu faça parar de chover. Eu te espero aqui só pra te ver sorrir, só pra ouvir a sua voz preencher todos meus espaços que ficam vazios toda vez que você sai.

Mas eu sei que você vem… Semana passada você prometeu que vinha. Eu sei, eu sei. Você prometeu tanta coisa sem fundamento que não foi capaz de cumprir… Mas um rabisco esquecido no canto da mesa, escrito com a sua grafia, que diz: “Não esquece que eu sempre volto pros seus braços, pequena.” me faz continuar aqui, encarando meus dedos entrelaçados e trêmulos que são apenas parte de meu nervosismo. Faz tanto tempo que não te encontro, que não te sinto perto de mim. Faz tanto tempo que a sua voz não me atinge tão de perto, e me faz perder a noção das coisas. Faz tanto tempo que eu não me considero completa, e a ideia de que a qualquer momento você pode entrar por aquela porta e voltar para mim, mesmo que apenas no sentido figurado da palavra, me faz sentir como se as coisas pudessem se resolver. Eu sei que elas não podem. Eu sei que elas não vão.

O relógio na parede já nem atraí mais a minha atenção. Tento manter meus olhos longe das nossas frases esquecidas sobre a mesa, e ignorar as mensagens que não param de surgir em meu celular. Elas dizem que você não vem… Me pedem, me imploram para sair daqui e voltar para casa, para deixar de esperar. Elas perguntam por que eu ainda acredito em você, se você continua fugindo de mim e indo para longe, para onde meus braços não conseguem te alcançar. E o seu atraso faz com que todas aquelas perguntas inconvenientes surjam em minha mente mais uma vez. Por que eu continuo aqui? Por que eu ainda te espero? Será que você vem? Será que você, pelo menos dessa vez, fica um pouco mais? Eu não me importo… Eu só espero que você chegue logo e sente-se na minha frente, porque eu preciso te contar sobre todos os dias que passei longe de você. Eu preciso fazer você entender que meus dias são todos repetitivos sem você, e preciso descarregar todas essas palavras que escondi durante meses. Talvez você entenda que minha vida fica tão melhor quando você faz parte dela, e sinta até um pouquinho de pena de mim e então peça pra ficar comigo, pra sempre. Novamente. Talvez você permaneça em silêncio, e se despeça quando amanhecer… É o que você sempre faz, eu sei. Mas eu preciso tanto que você venha só pra eu poder te falar que eu senti a sua falta.

O ressoar do sino ecoa pelo ambiente pela centésima vez na noite, e eu desgrudo meus olhos de meus dedos para mais uma vez encarar a porta. Encarar você.
(Você sabia que toda vez que eu te vejo, meu coração acelera?)
Por que seria diferente agora? O seu olhar tão magnético atraí o meu com tamanha facilidade, e toda a atmosfera ao redor de mim já parece perder todo o seu sentido. Você se mantém imóvel, distante… Eu reviro meu interior em busca daquela menina que outrora já teria saltado da cadeira e corrido até os seus braços, para te abraçar como se estivesse segurando a coisa mais valiosa do mundo ― e talvez estivesse. Mas aquela garota agitada com uma exagerada e desagradável falta de controle, assim como aquele garoto que ao me avistar não conseguia controlar os sorrisos involuntários que teimavam em surgir, desapareceu. Essa garota nova, tão perdida e bagunçada, apenas permanece sentada, quieta… Tentando segurar a vontade de deixar o nó na garganta se desfazer. Tentando segurar a vontade de implorar que você entenda e aceite esse meu amor tão desgastado, mas tão teu.

O som dos seus passos é o único que se destaca em seus ouvidos, e logo você está apenas a centímetros, puxando a cadeira e sentando-se na minha frente, sem romper com o silêncio presente e já tão conhecido nosso. Eu quero esticar a mão e segurar na sua, só pra saber se assim como eu, você também está tremendo. Eu quero aproximar meu rosto do seu pra ver se é apenas a minha respiração que desistiu de se manter sobre controle. Você sabe, eu sempre fui descontrolada demais, e você de menos. Eu peço mentalmente para que você me envie um sinal de que não sou apenas eu que estou sentindo o mundo ao meu redor desaparecer. Você então desvia o olhar do meu, e encara a mesa… E você então sorri. O meu sorriso.

― Achei que já tivessem apagado isso daqui ― Eu achei que sua voz já não fosse mais o meu som favorito. Eu me enganei.

― Eles tentaram, mas… uma pessoa acabou impedindo.

― Você e seu masoquismo sem limites.

― Você e seu orgulho idiota.

― Eu estou aqui, não estou? ― Você sorri novamente, aquele sorriso perdido e sem vida que eu vi quando você se foi. Eu te machuco, eu sei. A minha presença, a minha voz, essa distância toda que por culpa nossa, nos afastou de nós mesmos… Eu sei que te machuco, que destruí com grande parte da sua felicidade, com grande parte dos seus motivos para ser feliz. Eu sei que te fiz deixar de acreditar… Mas eu também deixei. E você, você também me dói tanto. A sua voz, o seu olhar, a sua presença que mesmo tão de perto se mostra tão distante. Você mudou a minha vida pra melhor, mas então você saiu dela, e como é que eu reaprendo a viver sem você?

(E todas as palavras que eu deveria estar falando para você… Eu apenas estou repetindo-as dentro de minha cabeça. O meu silêncio é tudo que você é capaz de ouvir. Me desculpa.)

― Lembra quando te liguei mês passado, de madrugada?

― Você sabe que lembro…

― Aquilo devia ter sido um adeus ― E parte de mim ainda é insana o bastante por saber que foi um adeus… um adeus não concretizado e esquecido. Assim como todos os outros.  

― Eu acho que eu e você… ― Suas próprias palavras parecem te atingir.

― Você acha que nós… ― Você sorri, relaxando por um segundo e deixando evidente que não sou a única que acha que uma palavra soa melhor do que duas.

― Não servimos para isso. Não servimos para dizer adeus.

(Você acha que nós dois não servimos para ficar juntos… nem para dizer adeus. Então, por favor, o que nós dois devíamos fazer?)
― Você continua se contradizendo, amor ― Minha mão involuntariamente avança sobre a mesa em busca da sua, que recua ― E fugindo de mim.

― “Do que você tem medo, anjo?” ― Você lê um de nossos bilhetes, me interrogando com o olhar e apoiando o rosto em uma mão.

(Eu tenho medo de que você esteja errado, e de que eu e você sirvamos para dizer adeus. Eu tenho medo de ver você indo embora pela manhã, mesmo sabendo que é exatamente isso que irá acontecer. Eu tenho medo de que essa sua dor não te deixe mais se aproximar de mim, e de que os seus caminhos terminem de se afastar dos meus. Eu tenho medo de que algum dia você perceba que não sou mais para você o que você continua sendo para mim. Eu tenho medo de ver você desaparecer, e não conseguir te encontrar. Eu tenho medo de me cansar de procurar por você. Tenho medo de desistir.)

― Medo de me perder de você ― Minha voz enfraquecida se perde no final da frase, e você, sem perceber, suspira ― E você?

― De me encontrar em você.

― Isso não faz sentido.

― E quando é que algo que envolvesse algo entre nós dois fez sentido? ― Você retruca decepcionado.

― Quando eu disse que te amava ― Digo sem pensar, vendo seu olhar mais uma vez se prender ao meu ― Quando eu digo que te amo… Isso faz sentido.

― Você sabe que não faz sentido continuar me amando, anjo.

― Assim como você sabe que não faz sentido ter medo de se encontrar dentro de mim.

(Silêncio.)

― Faz… Faz por que então vamos voltar à estaca zero e todo ― Você se perde nas palavras ― E todo os esforço que fizemos para nos manter… Vivos e… Afastados… Você sabe, todo o esforço irá desaparecer.

― O meu esforço não está funcionando.

― Mas…

― Shhh…

O silêncio entre nós dois retorna. Sinto seu joelho encostar-se ao meu de baixo da mesa, e vejo você entrelaçar seus dedos, apertando-os com forças antes de levar as mãos até os cabelos, arrumando-os para trás. Seu corpo, assim como o meu, desliza para frente da cadeira e nossas pernas de encaixam lado a lado, cúmplices… Assim como o seu olhar que torna a repousar sobre o meu.

― “Quando você estiver precisando de alguém, você sabe onde me encontrar.”

― “Sei, claro. No espaço vazio da minha cama.” ― Você conclui e deixa um riso baixo escapar, deslizando os dedos sobre o rabisco com a minha caligrafia torta.

― Eu podia ficar ouvindo o som da sua risada o tempo inteiro.

― Você continua mentindo.

― Você continua teimoso.

Você finalmente aquieta suas mãos sobre a mesa, próximas das minhas. Eu quase posso sentir os meus músculos formigarem e implorarem pelos teus.

― Lembra quando você me ligou duas semanas atrás?

― E você me mandou desligar? ― Você desvia o olhar, retorcendo os lábios e respirando fundo antes de tornar a falar.

― Eu só não podia escutar a sua voz ― Seus dedos, devagar, deslizam para mais perto dos meus ― Eu queria te falar tanta coisa, mas eu não posso ― Corro meus olhos pela mesa, em busca de alguma lembrança que se encaixe no momento e que te faça sorrir mais uma vez.

― “Vamos nos declarar?” ― Eu quase posso voltar no tempo e ouvir a sua voz agitada e cheia de entusiasmo me propondo isso.

― Se me lembro bem, mandei você começar ― Você se faz de desentendido.

― Se me lembro bem, eu comecei apenas porque você estava fazendo chantagem emocional ― Você balança a cabeça negativamente, esperando que eu comece ― Eu sinto sua falta.

Minha mão desliza e encosta na sua, e todas as sensações que um simples toque seu me causam parecem voltar como se nunca tivessem deixado de estar presente. Você tenta se afastar novamente, mas logo seus dedos tão ou mais trêmulos que os meus cedem, e se deixam entrelaçar. Eu sinto o calor do seu corpo fluir para o meu, e me sinto culpada por ter esquecido que os espaços entre os nossos dedos são uma espécie de encaixe perfeito. Relaxo meu aperto sobre sua mão, te dando total liberdade para se afastar.

― Talvez eu e você não devamos fazer isso.

― Eu preciso falar, e sei que você quer escutar.

― O que te faz pensar isso? ― Você desvia tentando fugir, tentando fazer com que eu continue longe o bastante de tudo aquilo que você precisa, mas não sabe como dizer. De tudo aquilo que você insiste em esconder de mim ― O que te faz pensar que eu ainda me importo?

― A sua mão continua entrelaçada a minha.

Você desvia rapidamente o olhar para nossas mãos entrelaçadas sobre a mesa, e parece travar uma batalha entre o certo e o errado, até que finalmente intensifica o aperto sobre a minha mão, mantendo-as unidas e fazendo meu coração, tão fraco e tão inseguro, ganhar vida mais uma vez.

― Eu sinto sua falta também ― E eu, que venho sonhando com essa frase saindo da sua boca há tanto tempo, me vejo sem saber o que dizer ― Eu sei que acabou, e você sabe disso também… Mas você continua ocupando espaço demais dentro de mim, e você continua sendo o meu melhor ideal de futuro, que deu completamente errado e arruinou com os meus dias. E eu só não entendo porque você ainda insiste tanto em nós dois. Porque você ainda arruma lacunas no seu tempo para me ligar de madruga, só pra deixar claro que eu sou um completo infeliz que ainda se deixa sorrir quando recebe uma ligação sua ― Você aperta meus dedos, inclinando seu corpo para frente e mantendo seus olhos fixos aos meus ― Você não entende que você continua sendo boa demais para mim e para qualquer outro?

― Você não entende que eu não quero ser boa demais? Que eu quero apenas ser o suficiente para você?

― Isso precisa acabar ― Sua voz devastada se mistura com suspiros meus. Sinto sua mão se desprender da minha, mas a seguro com força, implorando para que você não se afaste ― Você precisa me tirar da sua vida, e eu preciso te tirar da minha…

― Você precisa parar com essa ideia idiota de achar que somos melhores separados. 

― “Juntos ou separados, dói de qualquer jeito.”

― Eu passei quase três meses me contentando com os fantasmas do nosso passado e com as coisas que você deixou para trás antes de ir embora. Eu passei três meses tentando seguir em frente e convencer minha mente e meu coração de que eu estava melhor sem você… E se eu te dissesse que me convenci realmente disso, você saberia que estou mentindo. Você saberia que estou mentindo porque tudo em mim deixa transparecer que passar cinco minutos ao seu lado, segurando a sua mão, faz com que toda a dor que eu senti nesses três meses sem a sua presença desapareçam por completo.

Você se afasta e se levanta, hesitando antes de seguir em direção a porta, me deixando para trás. Eu continuo me perguntando o que me faz acreditar que um dia você me diga tudo que ficou trancado dentro de você durante todo esse tempo. Eu continuo me perguntando porque eu sempre espero o melhor de você. Porque eu sempre espero que você venha, mas venha para ficar. De uma vez por toda. Comigo. Pra sempre.

― Por que você continua fugindo? ― Pergunto alto o bastante para que você possa me ouvir, e seus passos cessam ― Por que você não encara que estamos presos na mesma história, nos mesmos erros, e por que não lida com isso?  Por que continua achando que ir embora é a melhor saída? ― Minha voz alta e trêmula atraí olhares que logo se dispersam.

Você finalmente desiste e volta, depressa, parando ao lado de minha cadeira e segurando meu rosto entre suas mãos. Apoiando-a sua testa a minha, você suspira contra meu rosto, e seu hálito fresco ainda cheira a hortelã.

― Por que eu te amo e não sei o que fazer com isso ― Sua voz baixa e quase inaudível se propaga dentro de mim ― Por que ficar perto de você faz com que tudo seja pior do que já é. Por que eu e você não conseguimos fazer isso funcionar. Me desculpa.

(I’m sorry… I’m sorry I let you down.)

― Eu sempre vou acreditar em nós dois ― Antes que você se afaste, levo seus lábios até os teus. Eu poderia viver cem vidas, amar mil vezes, sentir todas as sensações existentes no universo, desde as mais desagradáveis até as mais reconfortantes, e ainda assim nada se compararia as pequenas explosões que propagam em meu interior quando eu sinto que você, mesmo que por apenas uma fração de segundos, volta a ser apenas meu.

Me afasto de você, mesmo que contra minha vontade, e você faz o mesmo, cambaleando em direção a sua cadeira e sentando-se nesta, antes de pedir uma caneta ao garçom que passa ao nosso lado. Seus olhos percorrem a mesa e encontram um espaço vazio, onde sua grafia logo começa a surgir.

“Eu queria poder voltar no tempo… Uns 13 meses atrás.”

Você abandona a caneta sobre a mesa, esperando por alguma reação minha. Seguro a caneta e logo abaixo da sua anotação, concluo.

“Eu queria poder passar mais uns 13 meses com você.”

― Eu te amo.

― Sempre ― Você sussurra, enquanto eu torno a escrever.

“Então, fica comigo pra sempre?”

Entrego a caneta a você, que mais uma vez, segura em minha mão e repete: Eu te amo.

Você então começa a escrever, respondendo.
(bel♥vesick)


#belovesick  #27  
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belovesick:

Diz o ditado que quando uma porta se fecha uma nova janela se abre, não é? Eu então, pensando nisso, me vi fechando as portas da frente, dos fundos, as laterais… Passei a chave, coloquei cadeados, códigos de segurança e tudo pra fazer você sair da minha vida, sem chances ou possibilidades de volta. Não que isso fosse de minha vontade, mas era necessário. Era necessário te expulsar de dentro de mim, nem que isso me custasse vazios que nunca mais voltassem a ser preenchidos… E aí, as novas janelas realmente se abriram. As da frente, dos fundos, as laterais… E eu, te conhecendo a exatos quinhentos e oitenta dias, devia saber que você não iria aceitar ser expulso assim, dessa maneira grosseira, silenciosa. Eu devia saber que você daria de um jeito de pular pela nova janela aberta, e voltar para minha vida. Por que você foi exatamente isso que você fez.

É essa confirmação de que te expulsar da minha vida é uma tarefa árdua e impossível que me impede de dormir… Que me faz continuar jogada sobre o sofá da sala, encarando as vidraças salpicadas pela chuva pesada que continua caindo enquanto o relógio na estante ainda marca três da manhã. É a essa minha insônia, que ainda implora por você, que me faz questionar se ainda existe salvação para uma mente tão perdida, insana e masoquista quanto a minha. E, lá no fundo, escondida em alguma parte de mim, aquela voz doentia grita que até mesmo minha salvação possui teu nome, o que me faz sorrir para o nada. Quando é que você vai resolver aparecer e me salvar, meu amor? Me tirar desse sufocamento comandando pelas nossas lembranças, minhas memórias, nossos momentos… Quando?

O rádio da sala, que ainda trava uma batalha com o barulho torturante da chuva, chama minha. Because maybe… You’re gonna be the one that saves me. Eu penso em desligar e implorar para que o sono venha, mas a ideia de continuar em meu estado de inércia, te revivendo e te reinventando dentro de mim, ainda é minha melhor opção. Cinco, dez, quinze minutos. Três e vinte e cinco da madrugada. A rua deserta e escura de repente se ilumina por um segundo e volta a escurecer. Um barulho de porta batendo se destaca no meio dos outros sons que preenchem minha madrugada, e me obriga sair de meu estado de sonambulismo. Três batidas fortes na porta.

Não é você.
Não tem porque ser você.
Você não vem atrás de mim. Não mais.

Eu repito para mim mesma uma, duas, centenas de vezes. Fecho meus olhos com força e tento prestar atenção na música, na chuva, no batucar das minhas unhas contra o telefone em minhas mãos. Mais batidas na porta… Uma voz rouca e alta grita meu nome. Sua voz — Que faz minha respiração antes calma se tornar irregular quase que instantaneamente. Que faz meu coração tão apertado dentro do peito se expandir e ganhar vida mais uma vez. Sua voz que mesmo depois de quase dois anos, continua sendo meu som predileto, meu calmante natural, meu anestésico.

Eu salto do sofá e corro até a porta, evitando tropeçar em meus próprios pés que sustentam meu corpo fraco e trêmulo. Minha mão quente repousa sobre a fechadura gélida e meus músculos indecisos não se decidem entre abrir ou não. Entre deixar você chegar perto de mim, ou te manter afastado. Entre me manter segura na minha solidão, ou entre correr os riscos que acompanham sua presença. Sua voz novamente vence o silêncio e me atinge… Meu nome escapando pela tua boca me faz vacilar, enfraquecer, suspirar. Me faz voltar a ser nada, a me sentir nada. Só sua, como sempre. Sua na esperança de que dessa vez isso te baste, te conquiste… Te faça querer ser meu também.

Eu abro a porta devagar, sentindo minha respiração se perder quando sua imagem tão perfeita e tão real entra em meu campo de visão. Você sem aviso algum dá um passo a frente, fugindo da chuva e se aproximando de mim. Seu cabelo negro e molhado respinga em minha blusa — Não… Na sua blusa. Aquela que você dizia ser sua preferida, mas que ficava inúmeras vezes melhor quando usada pela sua garota preferida. Seu olhar intenso e magnético me analisa de baixo a cima, e um sorriso enviesado surge no canto dos seus lábios úmidos quando seu olhar para na camisa. Aquela sensação na boca do estômago e aquela vontade insana de me jogar nos teus braços e grudar a sua boca na minha ressurge.

— Será que eu posso entrar? — Você pergunta com a voz baixa, voltando a prender seu olhar no meu, me deixando desconfortável, a mostra.
— São três horas da madrugada — Você continua em silêncio, enquanto uma de suas mãos disfarçamente vai parar em minha cintura, me obrigando a cambalear alguns passos para atrás, permitindo que você chute a porta atrás de nós, fechando-a.
— E?
— O que você estava fazendo aqui? — Minha palavras embaralhadas soam incompreensivas até mesmo para mim. Você enrola, leva as mãos até seu cabelo bagunçando-o e fazendo com que novos pingos me atinjam.

— Eu estava passando por perto e resolvi te fazer uma visita rápida, é isso.
— O que você tem contra a verdade? — Questiono de imediato, te deixando sem palavras e me surpreendendo com o tom firme de minha voz, que esconde toda a bagunça na qual me transformo quando você está por perto.
— Verdades machucam, pequena.

Mentiras machucam mais, eu penso.
E as suas as suas machucam ainda mais.

— E o que você acha que faz? Você me machuca também.
— Eu sinto muito — Você dá um passo para trás, desviando o olhar por um momento — Eu não devia ter vindo. Eu já vou, tá? Só… Esquece isso.

Eu penso em te deixar ir. Penso em deixar você fugir mais uma vez e em fingir durante mais alguns meses de ausência que não me importo. Entretanto, a ideia de passar mais uma centena de dias tentando me convencer de que esse espaçamento irreparável entre você e eu já não me importa, não me sustenta mais. Minhas mentiras não são como as tuas, pequeno. Elas não me alimentam, não são atrativas, não são fortes o suficiente para vencer todas essas verdades que estão estampadas e tatuadas em mim. Essas verdades que você já decorou de trás para frente, frente para trás, invertidas e embaralhadas. Essas verdades que como você diz, te machucam.

— O que você está fazendo aqui? — Refaço minha pergunta, te dando uma nova chance e vendo um misto de insegurança e nervosismo crescer em você. Seus dedos agitados brincam com as chaves do carro, e você se aproxima novamente.

— Eu não conseguia dormir. Eu não conseguia deixar de pensar em você, deixar de pensar em nós — Você pausa, parecendo analisar suas palavras — Eu sei, eu sei que você vai dizer que não existe nós, mas foda-se… Eu não conseguia fingir que não me lembrava da data de hoje. Eu pensei em sair, pensei em encher a cara. Pensei em madrugar em uma mesa qualquer de bar, mas quando eu me dei conta já estava sentado naquela nossa mesa, rabiscada com as nossas memórias e então eu me vi pegando o carro e fazendo o caminho de casa.

— Mas você veio parar aqui — Concluo.

— É, eu sei. As ruas pareciam implorar para que eu mudasse meu destino, e viesse parar na tua porta as três da manhã… Você sabe, sabe que eu odeio chuva e ter começado a chover só serviu para me fazer praguejar ainda mais esse maldito dia. Eu tentei desviar, eu tentei dar ré, furar um sinal vermelho, me enganar dizendo que não lembrava qual era seu endereço… Mas até os letreiros em neon pareciam piscar dizendo que eu precisava te ver. Eu preciso te ver — Você se aproxima ainda mais, grudando seu corpo molhado e frio no meu, fazendo com que uma corrente elétrica percorra minha espinha, se alastrando por todo meu corpo — Essa é a verdade. A verdade é que eu não podia passar mais uma noite em claro, não sem você.

Como você faz isso? Como você consegue me fazer perder o chão, a noção de tudo que existe ao meu redor? Como você transforma toda minha angústia e magoa em saudade? Em vontade? Vontade de você, vontade de nós. Como você consegue continuar sendo minha pessoa preferida nessa mundo, mesmo quando eu passo meses me convencendo de que meu mundo seria tão mais fácil sem você… Me explica. Me explica porque você me ganha assim tão fácil, porque você me tem assim, toda hora, de qualquer jeito. Por que o teu sorriso ainda é minha definição de paraíso? Por que o teu olhar é o único que consegue sustentar o meu? Por que você precisa se encaixar assim, tão perfeitamente, em cada parte de mim?

— Você precisa parar com isso.
— Defina isso — Você sussurra, envolvendo minha cintura em seus braços e me fazendo dar passos curtos para trás. Sem esforço teu, sem resistência minha, você chega até o sofá, me fazendo sentar.

— Precisa parar de tentar me convencer de que ainda não acabou… Acabou — Minha voz sem vida vacila, e meu corpo cede, recostando-se no braço do sofá. Você se senta e inclina seu corpo na direção do meu, me deixando sem saída, fazendo meus pulmões implorarem por ar, meu coração implora por uma pausa nesse ritmo frenético. Mas eu, eu também imploro. Por você.

— Você ainda se importa? — Você pergunta com a voz rouca, baixa, num murmúrio lento e ritmado que me faz ter vontade de fechar os olhos e gravar a tua voz em mim — Você ainda pensa em mim, não pensa? — Seus dedos deslizam pelo meu braço, seguindo em direção a meu ombro, onde repousam dando início a uma carícia leve — Você ainda espera por um telefonema meu, uma visita, qualquer sinal que demonstre que eu ainda sinto sua falta… — Suas unhas curtas contornam meu pescoço, dedilhando minha nuca.

— Não sou eu quem devia estar te fazendo perguntas? — Você entorta os lábios, afastando-se de mim e enconstando-se no sofá. Meu corpo protesta, te querendo por perto novamente, querendo seu toque leve e preciso mais uma vez. Um suspiro pesado escapa por meus lábios, arrancando um riso baixo seu.

A escuridão quase me impede de ver aquele meu sorriso preferido, meio maroto, crescendo no seu rosto.  A chuva pesada continua batendo nas janelas, rompendo o silêncio e se misturando com o som do rádio que permanece ligado. Can’t get over you, can’t get through to you. It’s been a helter-skelter romance from the start. Eu e você sempre tivemos um romance saudável-doentio, não é? Era bom, era ruim… Era intenso, devastador, único. Não era perfeito, não era invencível, eu sei. Tinha lá os seus defeitos, seus problemas, suas falhas… Machucava quase sempre, trazia dor, rancor, medo. Às vezes parecia incompleto, outras vezes parecia ser o suficiente, o bastante, tudo que um dia eu sonhei em ter, e eu tinha… Com você. Mas, mesmo tendo lá os seus pontos negativos, que hoje em dia parecem pesar mais que todos os outros positivos, esse romance meio saudável, meio doentio… Ele era nosso. Era nosso e era exclusivo.

Você dizia que as pessoas não entenderiam, e que qualquer palavra ou explicação seria rasa e superficial demais para definir o que havia entre nós dois. A gente se trancou no nosso mundinho, na nossa bolha de sabão impenetrável, e não fez questão nenhum de sair espalhando o nosso amor em panfletos, jornais, outdoors… A gente tinha um ciúme (até gostoso) dele, do nosso relacionamento instável, de deixar alguém chegar perto demais… Eu sei. E, mesmo assim, todo mundo parecia ver o que a gente não fazia questão nenhuma de exibir. Todo mundo reparava que o seu sorriso ficava muito mais bonito comigo… Que o meu humor melhorava quase que 100% quando eu escutava seu nome no meio de alguma conversa. Suas manias chatas e irritante se tornavam até bonitinhas quando você estava do meu lado, e minhas fraquezas pareciam muralhas quando eu tinha você. Seu riso era mais feliz, meu olhar era mais sincero… Não era forçado, não era fingido… Era tão simples, natural, tão confortável. Our love was comfortable and so broken in.

— Pequena? — Você rouba minha atenção — O que houve? — Eu quero te pedir pra voltar. Pra voltar pra minha vida, pros meus dias, pra minha rotina estressante e chata. Eu quero te pedir pra tranformar meus dias cinzas em aquarelas. Eu quero te pedir pra ficar, mas eu não posso.
— A música — Minto — Só estava prestando atenção na música.
I loved you… Grey sweatpants, no makeup. So perfect — Você canta baixinho, encarando suas mãos entrelaçadas.

Silêncio.
Você bate os dedos no sofá, faz desenhos imaginários na sua perna, mas continua distante de mim. Eu continuo tentando, sem sucesso, controlar minha falta de auto-controle. Você então levanta e tira seu moletom, jogando-se sobre o braço do sofá e voltando a se sentar, um pouquinho mais perto de mim. Perto o suficiente para que suas mãos sigam em direção as minhas, me puxando de encontro ao seu colo. Eu me aconchego nos seus braços, passando minhas pernas por cima das tuas e encostando minha cabeça em seu ombro, aspirando seu perfume. Você me faz um cafuné gostoso, enquanto sua outra mão repousa sobre minha coxa.

— Eu gosto de ficar assim — Você sussurra, balançando os ombros no escuro — Do seu lado.
— Parece certo para para você?
— Minhas definições de certo e errado são confusas quando envolvem você, pequena.
— Eu e você não nascemos mesmo para ficar juntos, não é? — Pergunto, mas você não responde. Eu então aceito seu silêncio como um sim. Uma afirmação que cedo ou tarde, apareceria.

Eu lembro das suas palavras… Você insistia em dizer que eu era só um capítulo da sua vida, e que não adiantava discutir isso… Que a culpa não era nossa. Que se o universo não conspirava, se os caminhos não se cruzavam, se o destino não tinha planos para nos manter juntos, não adiantava lutar. Você realmente acreditava que eu aceitaria isso? Essas desculpas que você usava para justificar a nossa falta de coragem? Você realmente achava que eu não seria capaz de conspirar contra o universo, de traçar novos caminhos que fossem para o mesmo lugar que os seus, que eu não desafiaria o destino se esses fossem os problemas? Eu jurei tantas, tantas vezes que eu não desistiria de você. Eu te vi indo embora uma, duas, várias vezes mas eu não conseguia te deixar ir por completo, e esse era meu erro, não era? Era te puxar para perto quando você queria ir para longe. Era te fazer ficar, quando o certo era te fazer ir. Ir de uma vez, ir pra não voltar tão cedo, para não voltar jamais, quem sabe. Mas eu jurei, eu prometi. Prometi e entre tantas outras promessas esquecidas, quebradas, deixadas de lado, dessa eu não conseguia fugir. Não conseguia esquecer, me desapagar, quebrar. Você me viu lutando por você, por mim, por nós dois… Você me viu lutando contra as tuas inseguranças, os teus orgulhos bobos, os meus defeitos infantis, meus traumas infinitos. E eu, tão pequena, fraca, indefesa… Tão menina, me vi reunindo forças que eu nem sabia que existiam, só para lutar mais. Só mais um pouquinho, em uma tentativa desesperada de vencer no final… Mas eu eu sempre perdia. Perdia as forças, as lutas, as vitórias pequenas… Sempre perdia você. Tudo para não desistir, tudo sem saber que chegaria um dia em que desistir, na verdade, seria a vitória. Sem saber que esse dia, era hoje. Eu desisto.

— Como vai a sua vida com ela? A garota do natal? — Você deixa outro riso baixo escapar ao pé do meu ouvido, o que me provoca um calafrio gostoso. Eu respiro fundo, me deixando envolver pelo teu aroma doce… Quase esquecendo de ouvir as suas palavras confusas.
— Não existe ela… Existem algumas loiras, ruivas, morenas… Existem uns perfumes baratos na minha cama, umas manchas de batom em algumas camisas — I sleep with this new girl I’m still getting used to. My friends all approve — Umas tentativas frustradas de fazer dar certo com alguém, de encontrar alguém que seja capaz de me satisfazer por mais de duas noites, sem me fazer sentir vontade de mandar tudo pro inferno e voltar para os seus braços de novo.
— Somos dois idiotas adiando um possível reencontro, e adiantando um final que se recusa a chegar. Por que?
— Por que junto com um possível reencontro, vem também os desencontros. E eu não quero mais me desencontrar de você. Deixa como está, deixa ficar assim… Um dia a gente aprende.

— Você acha que a gente vai superar isso, algum dia? Que o seu nome vai deixar me causar essas sensações todas? Que a sua voz vai deixar de ser o meu som preferido, o seu sorriso nem vai ser tão mais incrível assim… Será que um dia eu vou conseguir dormir sem pretender sonhar com você? Ou que um dia eu vou aceitar que nenhum dos planos que eu fiz para nós dois vai se concretizar? Eu vou aceitar ser chamada de pequena por outro cara, sem que isso me destrua por dentro? — Sua mão busca a minha, apertando-a com força. Eu sinto minha garganta travar, meu interior queimar, se desfazer, se contorcer em dor — Será que algum dia eu vou achar melhor ter você fora da minha vida, da minha rotina? E essa bagunça que você causou aqui dentro de mim? Será que ela vai deixar de ser minha bagunça preferida? Que alguém vai ser forte o suficiente para encarar essa zona que você deixou, e vai tentar me arrumar, me deixar nova de novo? E o teu perfume, o teu cheiro… Alguém vai substituar? Me diz, pequeno… Será que algum dia eu vou deixar de achar que o seu toque é o melhor que eu já senti? Algum dia eu vou dizer que te esqueci, sem estar mentindo? Sem estar fingindo? Algum dia eu vou conseguir me desentoxicar de você? Dos teus efeitos, das nossas lembranças, de nós dois?

— Você quer isso?
— Você quer fazer parte do meu futuro? — Você não responde — Então eu quero — Sussuro contra sua clavícula, movendo meus lábios de leve contra tua pele e fechando meus olhos. Você deixa um suspiro pesado escapar, e eu luto para engolir o choro, engolir a dor, as palavras, tudo.
— Então eu acho que sim. Eu acho que um dia isso vai acontecer, você vai superar — Você afirma. Sua voz sai fria, sem emoção, sem vida.
— E você?
— Eu vou estar por aí… Feliz em saber que você finalmente me esqueceu. Talvez eu te esqueça também, sei lá — Suas palavras me machucam, e me vejo obrigada a concordar com você.
— Você tem razão… Verdades machucam — Digo com a voz manhosa, tentando esconder os rastros de choro e decepção. Você me afasta, me deixando de lado e levantando do sofá… Joga seu moletom por cima do ombro e caminha em direção a porta, sem olhar para trás, mas para antes de abrir a porta. Eu aceito que como todos os nossos outros momentos, esse também vai ter um fim incompleto, incerto. Que você mais uma vez vai embora sem me dar uma explicação, sem me deixar uma previsão de volta, e que vai sumir por semanas ou meses… E mais uma vez eu vou passar os dias esperando que você apareça, telefone, de um sinal de vida, e quando você não vier, eu vou começar a pensar que dessa vez não vai mais haver voltas, reencontros, surpresas no meio da noite. Mas, o que eu vou fazer então? O que eu vou fazer quando esperar por você, já não fizer mais sentido?

— Eu preciso ir embora — Você fala, completamente indiferente. Eu levanto do sofá e caminho depressa até a porta, sem coragem suficiente para te encarar, para competir com o teu orgulho, com a fuga. Sem coragem para te pedir para ficar. Eu então abro a porta, e você, ainda sem me olhar, saí. Vai embora depressa, sem se importar com a chuva, com a escuridão, comigo. Você me deixa para trás, sem reação, sem palavras, sem você, sem nada. Você apoia a cabeça na janela do carro, e eu me encosto na porta, sentindo todo meu controle se esvair. Foda-se. Foda-se o certo, o errado, o passado, o presente, o futuro. Tudo.

Eu não me importo se você vai me deixar mais uma vez, se você vai desaparecer por semanas, meses… Não me importo se isso vai me torturar, me machucar, me fazer chorar todas noites, e muito menos se esse amor doentio não é o bastante. Eu só me importo em estar com você, pelo menos agora. Pelo menos hoje. Meus pés involuntariamente obedecem a minha vontade e eu me vejo correndo até você, que me olha meio surpreso, meio sem entender o porque de eu estar parada na tua frente embaixo de um temporal que se recusa a parar, quando todos os relógios já marcam quase quatro da manhã.

— Lembra quando você disse que nenhum dos nossos planos iria se realizar? — Pergunto, vendo você assentir, ainda confuso — Então… — Eu me aproximo de você, ignorando os pingos gelados e pesados que desabam sobre nós dois, ignorando o frio desconfortável que se alastra na minha barriga, me deixando pateticamente nervosa. Eu passo meus braços em volta do seu pescoço, e você reciprocamente me puxa de encontro ao seu corpo… Eu consigo sentir sua respiração quente e pesada bater contra meu rosto, e então minha boca busca a sua com urgência, com saudade. Minha lingua desliza sobre a tua com calma, sem pressa, tentando saciar minha vontade de você… a sua toca o céu da minha boca me fazendo dar aquele sorriso que você diz amar. Suas mãos passeiam por minhas costas, e uma delas sobe até minha nuca, apertando-a, puxando algum fios de cabelo. Eu mordo teu lábio, partindo o beijo sem desgrudar nossos corpos — Acho que você estava errado.

— Me explica.
“Nós nunca vamos nos beijar na chuva.” — Relembro sua famosa frase, arrancando um riso teu que logo desperta um meu. Você balança a cabeça, parecendo não acreditar.
— Bom trabalho, pequena.

Silêncio.
Eu tento reviver aquela menina de antes, que não tinha medo, inseguranças, traumas.
Eu tenho revirar meu interior em busca daquela força toda, que antes me impedia de desistir.
Você continua me olhando, sem desviar… Parecendo tentar mergulhar no meu olhar para explorar minha alma, meus pensamentos, e eu então percebo que toda força de que eu tanto preciso, esta ali.
No castanho escuro que me fita como se eu fosse a coisa mais valiosa desse mundo.
Que me olhva da mesma maneira que me olhava na primeira vez que me viu.
Quando disse que me amava.

— Fica comigo… Só hoje? — Eu peço. Forte.
(belovesick)


#belovesick  #27  
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belovesick:

Você só se dá conta da falta que uma pessoa faz quando seus dias sem ela parecem intermináveis. Um dia invade o outro, uma semana invade um mês, e os meses se transformam em anos. Então, usufruindo de sua própria ausência você se vê largado em um canto qualquer, sufocado por uma neblina esbranquiçada com cheiro de cinzas que paira no ar, e por copos com resquícios de bebidas esquecidas e ― agora mornas pelo gelo derretido ― que já não embrigam o bastante para fazer com que as memórias de tudo se transformem em memórias de nada. O relógio inconstante parece quebrado, mas por alguma irônia do destino seus ponteiros ainda marcam três manhã, e por uma irônia ainda maior você se encontra entorpecido, com um telefone em mãos e uma chamada que não se compl…
― Alô? ― Sua voz me atinge, me fazendo lembrar como eu sou dependente de você.
(Sua voz podia ser a minha canção preferida. Podia.)
― Alô… Sou eu ― Digo estúpida, sabendo que sua maior vontade agora e retroceder esses dois segundos e ignorar essa ligação. Não, na verdade essa é a minha maior vontade.
― Você… E o…
― Não, não fala nada, por favor ― Imploro com a voz repleta de lamúrias, agonias intermináveis e acumuladas ― Só me escuta, por favor. Você sabe que dia é hoje, não sabe? Eu sei que você sabe, porque eu estive tentando te fazer lembrar dessa maldita data durante toda a semana. Sabe aquelas centenas de mensagens eletrônicas deixadas na sua caixa postal, com um número desconhecido? Você sabe, era eu. Era eu tentando dizer que eu ainda me importo demais pra deixar que você passe por essas 24 horas sem ao menos se perguntar o que teria sido de nós dois. Ontem de noite, enquanto eu esperava o tempo passar e o relógio marcar logo meia noite, para eu dar início ao meu ritual insano e masoquista de esperar por um sinal seu, eu finalmente percebi que minha vida é uma farsa sem você ― Ouço sua respiração descompassada do outro lado da linha, e talvez minhas palavras nem sejam assim tão importantes… Talvez você não precise escutá-las, afinal ― Você… Você está me ouvindo?
― Sim ― Você diz depois de algum tempo, com a voz cansada, conturbada. Eu me perco em nossos cobertores, procurando algum rastro do seu cheiro, já substituido por outras colônias baratas que dificilmente acalentam meu desespero.
Então, depois de chegar a conclusão de que minha vida é uma grande farsa, eu cheguei a conclusão de que você é a pior coisa que já me aconteceu. Eu pensei em ir até a sua casa e gritar na sua cara o quão canalha você é. Canalha, desgraçado, filho da puta, maldito… Você sente orgulho de ser tudo isso? Droga, eu sei que isso te corrói por dentro, mas a questão é que desde que você foi para cama com outra, me deixando existir só no seu passado, minha cabeça só sabe te odiar. Eu espero que você saia de casa e que o mundo desabe sobre a sua cabeça, que você se perca em um beco escuro, que você manche a sua melhor camisa com aquele maldito café dscafeinado que você tanta gosta. Eu espero que as mulheres que terminam o dia na sua cama e nos braços que costumavam ser meu abrigo, tenham o meu cheiro, só para você se torturar, só para você se contorcer em meio a carícias frias que não se comparam as minhas. Eu te odeio, mas o problema em te odiar é que eu… ― Não consigo encontrar a minha voz… Eu espero que o telefone esteja mudo, que você tenha se cansado e desligado, e que esse simples ato seu acabe com as minhas expectativas e um novo começo. Mas a sua respiração e o chiado do seu telefone me fazem ter certeza de que você continua aí, ouvindo minhas bobeiras. Por um segundo, eu espero que você me mande calar a boca e diga como eu sou incrivelmente boba por não acreditar no seu amor… Mas você continua em silêncio. Você não me surpreende.
― Você me odeia ― Eu deveria te odiar, eu sei. Então porque no meio desse ódio todo, a minha vontade de você ainda parece ter voz própria e gritar? Implorar por você? Se você soubesse como a sua ausência me maltrata, me destrói… Como a sua ausência interminável me reduz a nada.
― Eu te odeio. Eu te odeio porque eu estive lutando por nós dois durante esses malditos quatorze meses, e eu jurei a mim mesma que eu seria forte e que não desistiria de nós dois, garoto. E você, você me deixou fraca. Você me fez desistir. Você parece não se importar em estar me perdendo.
― Ei, olh…
― Não, me escuta! Eu te odeio porque você me transformou em uma garotinha fraca, indefesa, que tem medo de seguir os próprios passos. Você pegou toda a minha força e foi embora com ela, e me fez insegura. Eu me sinto tão, tão pequena e quebradiça. Eu tenho medo de encontrar novas pessoas, tenho medo de me encantar com sorrisos, de me perder em olhares. Eu tenho medo de me apaixonar por outros perfumes, porque eu tenho medo de ver meu mundo sendo estilhaçado de novo. Eu tenho medo até mesmo de sair da cama pela manhã, porque eu sei que o seu nome vai estar por todos os lugares nos quais vou estar. O som da sua risada ainda vai me perseguir, e eu ainda vou esperar encontrar você usando um daqueles seus suspensórios desgastados, e trazendo no rosto aquele seu sorriso irritante, em cada uma das esquinas em que eu dobrar. Fazem exatos trinta e dois dias desde que você me deixou para trás, e eu ainda me pergunto por que é que você continua fazendo parte dos meus dias. Me explica isso, por favor.
(Silêncio.)
(Se você soubesse a falta que você me faz.)
― Eu sinto muito.
(Três e vinte e sete da manhã.)
Você sente muito por ter entrado na minha vida? Por ter deixado te fazer parte dela? Me diz, por que eu não entendo. Você sente muito por ser o único homem capaz de me fazer sentir completa e viva? Por ser o único que consegue me fazer ir até o inferno e depois me levar de novo ao paraíso? Por que eu sinto muito também. Eu sinto muito por ter deixado que você fosse tudo isso… Eu sinto muito pela minha cabeça que deixou de entender o significado da palavrão razão, e aderiu a tamanha insanidade. Eu sinto muito por ter sobrecarregado meus ouvidos com o timbre delicioso da sua voz, e de ter acostumado meu corpo aos seus toques quentes e urgentes. Eu sinto muito por ter te entregado meu coração, e por ter deixado que você marcasse-o com inúmeras cicatrizes e feridas que não fecham.
― Você não sente muito ― Desisto… Assim como já desisti de você, de mim… Assim como já desisti de nós… Desisto das minhas palavras.
― Eu não confio em mim mesmo quando estou do seu lado, e você sabe disso ― Não, eu não sei. Eu não quero saber. Eu não quero deixar que a sua voz destrua minhas fortalezas. Eu só quero que isso acabe. Por que você não me rouba para você de uma vez? Por que você não deixe de se importar com o resto do mundo, e se impora apenas com nós?  ―  Você sabe que você acabou com todo e qualquer motivo que eu pudesse ter para seguir em frente. Você me tirou a vontade de fazer planos, porque com você eu aprendi que eles não se realizam. Você me deixa com medo, você me deixa inseguro e me deixa perdido… E eu odeio me sentir assim. Eu posso viver sem você, e você pode viver sem mim, mas o problema é que minha vida sem você nunca mais vai ser a mesma. O problema é que todas essas garotas que acabam na minha cama e que você tanto odeia, todas elas tem um pedaço teu. O que eu faço com isso? O que eu faço com essa necessidade de seguir em frente que sempre acaba sendo destruída toda vez que uma garota que tem a mesma cor dos seus olhos, ou que usa o mesmo perfume que você costumava usar, ou até mesmo que tem o seu nome acaba nos meus abraços? O que eu faço quando a minha maior vontade é substituir todas elas por você?
(É sempre assim… Você sempre me ganha fácil demais.)
O que eu faço com esse vazio que você causou?
O que eu faço quando as coisas não fazem sentido quando você não está?
O que eu faço quando te vejo seguir em frente, mas simplesmente não consigo sair do lugar?
― Não… O que eu faço com esse vácuo que você deixou na minha vida? Com esse buraco negro que você plantou dentro de mim e agora suga todas as coisas boas que tentam me fazer seguir em frente? Você ao menos se lembra dos nossos planos? Lembra quando combinanos de fugir juntos e de como as coisas pareciam perfeitas naquela época? Eu e você, a nossa casa e o nosso colchão. A gente nunca precisou de coisas materiais. A gente sempre se bastou, e porque foi que isso deixou de ser o bastante? Quando foi que aqueles planos bobos de passar a madrugada inteira acordados, perdidos um nos braços do outros, falando sobre coisas desconexas como a cor das minhas unhas ou sobre a suas fobias estranhas deixaram de existir? E aquele beijo de baixo da chuva, ou aquela briga por ciúmes que teríamos na praia? Eu não vou poder vestir a sua camisa quando acordar, e não vou poder sorrir ao notar que o seu cheiro ficou impregnado em mim. Eu não vou poder te levar torradas na cama, e nem te chamar de meu… Então me diz, o que é que eu faço com todos esses planos que agora já não são mais o bastante para nos manter unidos? Me diz o quem é que vai me acolher quando eu estiver me sentindo desprotegida? De quem é que eu vou cuidar em noites de tempestade? Nada disso faz sentido se não for com você. Eu não quero outros perfumes, outros braços, outros planos. Eu quero os nossos, eu sempre quis eles e eu continuo querendo ― E droga, há uma grande possibilidade de eu continuar querendo, mesmo que esse seja o nosso fim. O nosso fim de verdade ― Devíamos ser eu e você, acima de tudo e de todos. Devia ser algo natural, confortável. Eu devia continuar sendo só sua, e você sendo só meu… Eu ainda te pertenço, e injustamente você já pertence a outras. Era pra esse amor ferido e orgulhoso bastar, mas ele não basta. Era pra esse meu ódio ser capaz de me manter longe de você, mas ele só faz com que eu sinta mais a sua falta. Ele vem me maltratando a dias, arranhando todo meu interior e me fazendo dar passos falsos até você.
(Eu te odeio. Eu te amo.)
(Eu te amo até mesmo quando te odeio.)
Eu sinto tanto a sua falta, e do que costumavamos ser. Sinto falta de saber que o seu sorriso é meu, que meu nome te faz arrepiar e que seu coração se agita com a minha presença. Você sente saudade? Saudade da minha voz ao pé do seu ouvido sussurrando seu nome, te chamando de meu. Você sente saudade das minhas declarações bobas durante o dia? Você sente saudade de nós? Não, não existe nós. Existe você e existe eu… Eu sinto tanto falta do nós.
― São três e meia da manhã e eu só queria te ligar pra ouvir a sua voz ― Admito, ignorando aquilo que chamam de amor próprio, e jogando o que me resta de orgulho no lixo. Admito sabendo que o simples fato de ouvir a sua respiração do outro lado da linha já me faz perceber que eu não mudaria um só segundo do que passei do seu lado… ― Eu não mudaria nada ― Deixo as palavras soltas, e de repente esse silêncio que se instala entre nós dois me parece familiar, idêntico ao silêncio que se fez antes de você me deixar.
― Eu mudaria a parte em que acabou.
― Eu não queria que nos perdessemos.
― Mas nós já nos perdemos, peq…
― Não, não diz isso.
(Me deixa acreditar que isso tudo é só mais um obstáculo, e que no meio desse labirinto todo nós dois ainda conseguimos nos encontrar.)
Me deixa acreditar que você ainda pode me encontrar dentro de você, mesmo que esquecida… Assim como eu ainda posso te encontrar aqui, gravado em mim.
― Eu preciso tirar você da minha cabeça.
― Eu preciso tirar você da minha vida.
(Preciso. Não quero.)
E o silêncio, de novo, me faz perceber que não resta nada. Eu já não sou o bastante para você, e você ainda permanece em excesso dentro de mim. A saudade que eu sinto de você e do que você era do meu lado já não é milagrosa a ponto de fazer você ficar do meu lado, só por mais alguns instantes. Talvez você esteja certo, e talvez esse amor tenha se perdido. Talvez nós ― não, eu e você ― tenhamos nos perdido. Mas se for isso, por que eu ainda te encontro? Te encontro em cada pedacinho meu, em cada sussurro perdido que escapa dos meus lábios antes seus… Encontro você em cada pensamento que me invade antes de dormir e em cada pensamento que me desperta pela manhã. Nos meus melhores momentos, nos meus piores, eu te acho sempre, perdido e esquecido aqui, em cada mínimo detalhe meu. Eu não consigo te tirar de dentro de mim. Eu não consigo me perder da tua presença, de você… Então, se a gente se perdeu, por que é que eu ainda te encontro? Sempre? Por que é que você ainda faz parte de mim?
― Me escuta só mais um pouco… ― Você não me responde, e eu tento controlar minha vontade doentia de implorar para que você deixe de ser tão teimoso e venha logo terminar a noite do meu lado, perdido nas minhas cobertas, preenchendo os espaços vazios da minha cama ― Eu sinto a sua falta. Eu me culpo todos os malditos dias por não ter insistido mais em nós dois. Eu me culpo todas as noites por não ter sido forte para te mandar calar a boca todas as vezes que você me mandou embora. Eu sinto muito por ter jurado não deixar que o nós chegasse ao fim, e mesmo assim ter que ter desistido de nós. Eu amo você, e eu sei que é pra sempre…
― Por favor… Não fala essas coisas…
― Me deixa terminar, eu já vou desligar ― Eu já vou me perder por completo de você.
― Eu sinto a sua falta também, escuta.
― Eu só queria que você soubesse que todas as vezes que me distanciei, foi na esperança de que você me puxasse para perto… Quando você disse que nosso amor não era o bastante, eu só queria que você, assim como eu, estivesse disposto a mudar isso. Eu não queria ter que esperar os meses passarem, para poder te ligar nesses malditos dias em que lamentamos os nossos aniversários de um namoro que já deixou de existir há muito. Eu não queria ter que me enganar e forçar sorrisos para que todos acreditem em um bem estar que não existe… Mas eu não queria tanta coisa, que de uma maneira ou de outra acaba sendo inevitável. Eu não queria que a minha vida se distanciasse da sua. Eu não queria ser a ex-psicótica que te liga as três horas da madrugada para dizer que se sente a sua falta. Eu queria apenas ser aquela aparece na sua porta, todos os dias, as três da manhã, pra dizer que te ama e que sente muito por ter tropeçado em tantos erros, tantos meus quanto teus. Eu só queria que meus acertos pesassem mais.
― Eu amo você.
(Então por que você deixou de acreditar em nós?)
(Então por que você deixou de acreditar que nosso amor era o suficiente?)
― Eu sei.
(Silêncio)
(Quatro e quinze da manhã.)
― Se cuida ― Você sussurra.
(Eu quero ser cuidada por você.)
― Se cuida também… Amo você, tenta lembrar ao menos disso, por favor… Me esquece, mas não esquece desse meu amor ― Minha voz arrastada denuncia minha necessidade de prolongar o momento, que logo acaba. O telefone fica mudo, a sua respiração desaparece. Eu ainda sinto sua falta… E o silêncio que preenche a linha, e ensurdece meu interior me faz aceitar que como fora dito a princípio, minhas palavras não mudam nada. A sua ausência que permanece tangível e imutável me faz perceber que chegamos ao nosso fim… E esse coração ferido que ainda bate, mesmo que fraco, mesmo que em uma contagem regressiva… finalmente cede, e finalmente diz à linha muda: ― Adeus, amor.
(bel♥vesick)


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