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É difícil escrever com a cabeça cheia e o coração vazio.


Eu e Você — Parte 4.

— Puramente carnal — Você concordou. 

Ótimo. Ótimo porque se você achava que era puramente carnal, então eu poderia me convencer do mesmo e assim as coisas continuariam na zona de conforto, e meu coração fora de perigo. Afinal de contas, a gente nunca escuta falar sobre uma garota que ficou trancada no banheiro por três horas, chorando escondida, porque seu relacionamento “puramente carnal” chegou ao fim. Além disso, era muito mais fácil resolver os problemas carnais do que os sentimentais. “Quem vai ficar por cima hoje?” contra “Quem ama mais?” Engraçado, mas a resposta para a segunda pergunta pareceu ter chego antes que a resposta da primeira, e isso me deixou incomodada. Incomodada porque, mais uma vez, eu estava envolvendo amor em uma relação que obviamente, não funcionava a base disso. Eu não me importava, é claro que não. E, te amar? Eu não te amava. Eu podia até dizer que amava o seu cabelo bagunçado, suas mãos ásperas e quentes que agora estavam entrelaçadas as minhas… Eu amava também a sua voz, e as ruguinhas que se formavam em volta do seu olhar quando você sorria — e o seu sorriso, ah… Eu também amava o seu sorriso, e o seu cheiro. Sua boca, que tinha se combinado tão perfeitamente a minha… E… É, eu amava algumas — digo, apenas algumas — coisas em você. Mas não passava disso. Amar algumas coisas, alguns detalhes, alguns defeitos chatinhos que te deixavam ainda mais charmoso. Só.

Droga, a quem eu estava tentando enganar? Você tentou me convencer de que não era tão errado assim eu passar a noite com você, e a verdade é que eu tava só fazendo charme e tentando bancar a difícil pra você não perceber que, na realidade, passar a noite do seu lado, na sua cama, era o que eu mais andava querendo. A gente gastou mais meia hora perambulando pelas ruas movimentadas antes de chegarmos até um sobradinho pequeno, pintado com uma cor meio pêssego desbotado e com um jardim florido ao lado da garagem. 

— Tem certeza que quer entrar? — Você perguntou parecendo sério, e uma vontade estranha de perguntar qual era a droga do seu problema me dominou. Você não queria mais que eu ficasse com você? É só que, sei lá… Você era tão confuso quanto eu, e desvendar suas intenções parecia à coisa mais complicada do universo.— Qual o problema? Não quer mais que eu fique com você? — É só que se você entrar aqui, na minha casa… Há grandes possibilidades de que eu não te deixe mais ir embora — Um sorriso torto surgiu no canto da sua boca, e pela centésima vez na noite eu senti meu coração reagir as suas palavras, se mostrando um tanto estúpido por insistir em bater tão rápido e completamente fora de sorri. Aquele sorriso involuntário e que eu simplesmente não sabia como controlar surgiu no meu rosto, e cresceu ainda mais quando você passou o braço em torno dos meus ombros, enquanto abria o portão com a outra mão antes de perguntar, novamente, se eu tinha certeza do que estava fazendo.

— É claro que tenho certeza. Estou ciente de que posso ser seqüestrada se colocar um pé dentro da sua casa, pode ficar tranquilo.— Também está ciente de que posso querer te manter em cativeiro na minha cama, certo? — Sua voz cheia de segundas intenções me fez estremecer e seu olhar pairou fixo sobre o meu, fazendo meus joelhos fraquejarem. Eu queria saber como você fazia isso. Meu corpo inteiro parecia entrar num estado de hipnose, e meu centro de gravidade parecia ser você. Você e esse teu olhar profundo que me desvendava por inteira, me fazendo sentir uma idiota por deixar transparecer essas minhas fraquezas relacionadas a você. — Eu não me importo… Sempre quis ser vítima de uma Sindrome de Estocolmo, se quer saber. — Então quer dizer que se eu realmente me tornar seu seqüestrador, há chances de você se apaixonar por mim? — Talvez — Falei depois de pensar por uns segundos. Você soltou o ar com força e por um momento pensei em rir e dizer que não era preciso me seqüestrar… Que eu já estava perdidamente apaixonada. É. Eu tava. E foda-se se eu estava deixando para assumir isso em um momento como esses, quando você me arrastava para dentro da sua casa e sem presa alguma batia a porta atrás de nós, me guiando para sabe-se lá onde enquanto eu sem cerimônias, me deixava levar.

Tentei reparar na sua casa algumas vezes, mas isso se tornava uma tarefa quase que impossível, quando minha atenção estava toda canalizada nas suas mãos firmes que não desgrudavam da minha cintura. Sabe quando seu corpo inteiro parece protestar e surge uma pontinha de medo misturado com nervosismo quando você está prestes a fazer algo importância? Por algum motivo, era exatamente assim que eu me sentia. Reparei na parede verde claro do corredor, e em três quadrinhos em preto e branco que a enfeitavam. Você aproveitou a minha falsa distração e encostou meu corpo na parede, dando um beijo demorado no meu pescoço. Se eu tinha planos de fugir, era melhor eu colocá-los logo em prática. Engraçado, mas minha única rota de fuga eram seus braços. Enquanto sua boca quente insistia em percorrer meus pescoço e ombros, eu desastradamente explorava suas costas com a mão, vez ou outra acariciando sua nuca e puxando seu cabelo desalinhado, que cheirava a shampoo infantil. Uma mordida leve no meu pescoço, um aperto firme e possessivo na minha suspira, e um suspiro baixinho meu que resultou em uma distância desnecessária que surgiu entre nossos corpos. Você se encostou a parede oposta, erguendo o rosto e cruzando os braços diante do peito.

— Não me consigo me controlar quando fico perto de você. Você não parecia culpado. Só parecia, sei lá, meio receoso. Talvez fosse medo de que estivesse forçando a barra, indo rápido demais. Medo de que eu não quisesse ser sua, tanto quanto você queria isso. Mas não fazia sentido você estar pensando nessas coisas, uma vez que havíamos combinado de que nossa relação era só carnal. Você simplesmente deveria me levar pra cama e depois de se divertir, levantar e me mandar embora, dizendo que tinha que acordar cedo pra fazer alguma besteira na rua. Eu iria concordar, recolher minhas roupas espalhadas pelo chão do teu quarto e ir pro meu apartamento. Eu e você iríamos marcar encontros rápidos de no máximo meia hora, e iríamos seguir assim, não é? Então, por que você fazia questão de me fazer pensar que não era só eu que achava isso meio errado? Digo, essa relação anti-sentimental… Por que vocês me fazia achar que seu dia também ficava melhor quando você me tinha por perto, ou que você nem precisava estar com a boca grudada na minha pra ficar feliz? É que parecia que, por algum motivo, você também poderia se contentar só em passar uma tarde qualquer de domingo jogado do sofá, com a cabeça no meu colo enquanto assistia futebol e eu reclamava, dizendo que não entendia nada. Pra você, assim como para mim, parecia que só ficar por perto bastava. Na verdade, acho que era isso que eu desejava. Talvez isso seja o que chamam de ilusão, não é? Iludida. Eu devia estar iludida.

— Eu não estou pedindo por controle.— Então, está pedindo o que? — Você.

E em um piscar de olhos o calor do seu corpo voltou a se alastrar pelo meu. Suas mãos quentes me puxaram para perto de você, quase que desafiando as leis da física que dizem que dois corpos não ocupam o mesmo espaço. Duas portas a direita, e eu avistei uma cama bagunçada de casal. Um violão estrategicamente posicionado do lado direito, uma dezena de pares de tênis espalhados pelo chão e um criado mudo que destoava do restante do quarto, por mostrar-se incrivelmente organizado. Senti meus joelhos baterem no pé da cama e o peso do seu corpo me obrigando a deitar. Você deixou um riso baixinho escapar e pediu desculpas por algum motivo que eu não fiz questão de entender. Meu cérebro não parecia fazer grandes esforços para raciocinar, não quando o seu corpo ficava assim, tão perto do meu a ponto de me fazer perto a noção das coisas.

— Puramente carnal, não é? — Você sussurrou ao pé do meu ouvido, e eu tive certeza de que se você estivesse sussurrando qualquer outra besteira, ou recitando até batatinha quando nasce, eu não seria capaz de discordar. Não com você fazendo questão de me maltratar com essa voz baixinha e rouca que eu fiz questão de decorar. Eu só conseguia pensar que devia ser proibido alguém tão imperfeitamente perfeito como você, contar também com essa voz mutável e pateticamente deliciosa que, em qualquer estado, fazia meus nervos entrarem em conflito. — É, acho que sim — Silabei baixinho, mentindo terrivelmente. Se fosse só carnal não haveria essa vontade incontrolável de espalhar aos quatro ventos que eu tinha achado um motivo razoável para fazer as malas e juntar as minhas escovas de dente com alguém — alguém você. Não haveria essa vontade estranha e nova e de dizer que eu tava apaixonada e eu precisava assumir que estava. Precisava colocar isso pra fora, gritar, choramingar baixinho até que você parasse pra prestar atenção em mim e nas minhas palavras bobas. Você precisava saber que meu coração tava pedindo pra ser seu, e que eu estava em total acordo com a opinião dele. Mas era melhor continuar calada, eu sei. Complicar pra que, se tudo podia ser feito na base do descompromisso?

— Tem certeza? — Por que você continuava insistindo? Sua mão quente deslizou para dentro da minha blusa, fazendo um carinho gostoso na minha cintura e me fazendo esquecer de responder a sua pergunta. Você chamou minha atenção, desgrudando sua boca do meu ouvido e me encarando. Assim você não facilita, garoto. Acho que você percebeu minha distração involuntária e se deu conta de que meu silêncio era por sua culpa e resolveu se aproveitar disso. Sem pressa, você arrumou um jeito de tirar a minha blusa e fazer o mesmo com a sua, sem afastar seu olhar caramelado do meu. A ponta dos seus dedos voltou a circular pela minha pele fria, me fazendo sentir calafrios que se não fossem tão torturantes, até seriam gostosos. Droga, eles eram “torturosamente” gostosos. Sua mão subiu até o meu pescoço, deslizando para minha nuca e erguendo meu rosto até que minha boca ficasse a centímetros da sua, quase que desafiando a minha força de vontade para não acabar com o diálogo. — Por que você não me responde? — Se você fazia questão de me torturar, por que eu não podia fazer o mesmo com você? Deixei minhas unhas percorrem suas costas e seu corpo se contraiu contra o meu, me fazendo esboçar um sorriso meio envergonhado. Estar mantendo esse contato visual era um tanto desconfortante, mas a idéia de rompe-lo chegava a doer. Ergui uma perna até seu quadril, deslizando o pé pela sua perna e sentindo sua mão livre descer em até minha coxa, apertando-a por cima do jeans. — Não — Um monossílabo e sua boca voltou a encontrar a minha com certa urgência. Sua língua se enroscava com a minha e meus mãos que pareciam ganhar vida própria se demoravam nos seus ombros largos. Você se afastou e girou para o lado vazio da cama, me puxando para cima de você e repousando as mãos sobre minhas coxas. — Não? — Perguntei. — Não vamos falar sobre isso.— Eu acho que vamos — Respondi manhosa, passado a ponta dos dedos pelo seu peito e fazendo desenhos imaginário na sua pele. Você não cedeu, permanecendo calado — Não acha que eu mereço saber? — Insisti, inclinando meu corpo para frente e dando uma mordidinha no seu queixo, antes de seguir até seu ouvido e sussurrar baixinho: — Por favor… Me conta.

Senti sua respiração quente e pesada no meu ombro e você inverteu nossas posições mais uma vez, tornando a ficar por cima de mim e dessa vez deixando todo o peso do seu corpo sobre o meu. Seu perfume parecia se desprender da sua pele e se espalhar para dentro dos meus pulmões, misturando-se com o ar que eu, com dificuldade, puxava com força. Como não? Você não tinha certeza? Do que você estava falando? Mais tarde eu teria que lembrar de reclamar sobre essa sua mania de confundir meus pensamentos. Você precisava saber que fazia isso com uma facilidade impressionante, que chegava até mesmo a provocar uma angústia. Era meio chato ter que ficar a todo momento tentando ler as entrelinhas das suas frases mal elaboras e ambíguas. Era chato porque eu sempre havia sido a parte confusa e misteriosa de todas as minhas relações e agora eu era apenas um pontinho completamente ofuscado pela interrogação gigante que era você.

— Não faz assim comigo.— Assim como? — Questionei baixinho, falando pausadamente para não deixar minha evidente falta de experiência em bancar a provocadora chantagista transparecer em minha voz trêmula. — Essas chantagens emocionais, esses sussurros… Essa maneira pausada de falar. Não pede por favor, porque não dá…— Não dá? — Voltei a sussurrar, não conseguindo esconder um sorriso divertido que surgiu ao ver sua expressão tornar-se séria. — Você me deixa meio louco.

Percebi que meio que sem querer querendo, você havia desconversado e por um segundo senti vontade de deixar isso pra lá. Devia ser alguma besteira, coisa de momento. Talvez você também estivesse sentindo um formigamento estranho toda vez que minha pele entrava em contato com a tua, e que o menor dos contatos estivesse deixando sua respiração meio descontrolada. Vai ver que esse nosso carnal estivesse intenso demais para se basear apenas nisso, em desejo. Tinha um pouco a ver com conexão e eu tinha certeza de que eu não era a única que conseguia perceber esse fluxo interminável de energia que parecia fluir entre nós dois. Era algo meio magnético, como se nossos corpos estivessem unidos demais para se afastar, ou como se nossos olhares não suportassem passar mais de dez segundos sem tornarem a se encontrar — e isso era tão incoerente. Incoerente porque ninguém nunca jamais conseguiu me passar tanta segurança a ponto de prender minha visão por tanto tempo, e você fazia isso sem esforço.

— Não muda de assunto.— Você não quer que eu diga isso. — Fala. — Não. — Por favor. Você soltou o ar com força, deixando um beijo demorado na minha boca antes de se afastar e voltar a falar aquilo que eu, por algum motivo, jurei que não escutaria tão cedo — E talvez esse tenha sido o motivo para o meu silêncio. Eu não havia feito o roteiro para esse diálogo e todas as respostas possíveis ainda eram um tanto vagas e superficiais. — Não é puramente carnal para mim. Você sussurrou.


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Eu e Você — Parte 3.

— Assim — Você disse baixinho antes de enquadrar meu rosto em suas mãos frias e grudar sua boca na minha. Eu acho que não tive tempo de assimilar a proximidade que de repente havia surgido entre nós, e muito menos tempo para digerir a ideia de que seus lábios quentes e macios brigavam com os meus, tentando encontrar um ritmo que parecia não se definir — não era rápido, mas também não parecia lento… Era simplesmente na medida certa. Sua língua se entrelaçava a minha com uma sincronia tão assustadora que até meu coração surpreso parecia dar umas cambalhotas desajeitadas dentro do peito. E, uma meia dúzia de calafrios insistia em descer pela minha espinha cada vez que a sua língua tocava o céu da minha boca, me deixando com vontade de sorrir. O nosso encaixe era tão natural que era difícil aceitar que não era a sua boca que eu devia estar beijando. E, lá no fundo, eu nem tava ligando pra isso… Pro certo, pro errado. Eu só tava ligando pra pressão que a sua boca exercia sobre a minha, a ponto de me fazer flutuar, ou algo assim.

Você rompeu o beijo e puxou o ar com força, sem voltar a me beijar — e meu corpo pareceu protestar. Quem tinha te dado ordens de se afastar? Hein? Ficou ali parado, com as mãos apertando a minha cintura e me mantendo sentada sobre o teu colo, enquanto sua respiração tão desregulada quanto a minha parecia tentar voltar ao normal. Eu queria tanto ser capaz de desviar o meu olhar do seu, mesmo que apenas por um segundo, só pra não deixar transparecer que você tinha conseguido.Que a coisa mais errada do mundo, agora parecia ser a mais certa. Meu cérebro ainda entorpecido pelo gosto da sua boca parecia trabalhar em câmera lenta, e eu tinha certeza de que nem mesmo o meu nome eu seria capaz de lembrar, não agora. Não enquanto meu lábio inferior parecia latejar e implorar por só mais um pouquinho de contato, e não enquanto cada partezinha do meu cérebro parecia fazer questão de espalhar doses exageradas de adrenalina por todo meu corpo. Eu queria te beijar de novo. Eu queria sentir a sua boca se movendo contra a minha só mais uma vez, só pra ter certeza de que o responsável por aquele turbilhão de sensações que parecia ter brotado dentro de mim era o seu beijo quente.

— E agora? — Seu sussurro fez outro calafrio me dominar. Pensei em te mandar parar de usar essa voz que me deixava nesse estado deplorável, mas você certamente daria uma risada, e então eu acabaria tendo que pedir para você também parar com sua risada gostosa, e isso te faria pensar que eu odiava tudo isso — Como se fosse possível odiar o timbre rouco da sua voz que conseguia facilmente arrepiar todo meu corpo. Aliás, eu odiava. Claro que eu odiava. Não é? Ok. E agora? Era uma pergunta simples com uma variedade interminável de respostas, mas que pareciam todas incorretas diante da única resposta que eu sentia vontade de dar.

— Agora você me beija de novo. 

Eu nem sei de onde saíram às forças, a coragem ou até mesmo a cara de pau que me fez desenterrar minha melhor voz de garota mimada para pedir por mais um beijo seu. Logo eu que era a parte politicamente correta e certinha da relação, e nada cara de pau. Logo eu que tinha passado as últimas semanas tentando me convencer que de a única palavra cabível entre nós dois era a palavra amizade — mas eu acho que amigos não faziam esse tipo de coisa, não é? Sei lá, só conseguia pensar que talvez essa palavra tivesse sofrido alguma espécie de mutação incompreensível, sem que eu me desse conta disso, e se transformado na palavra… Não, eu não queria pensar nessa palavra. Um beijo não era o bastante para atribuir a nós dois o titulo de amantes, claro que não.

Seu sorriso torto e até tímido interrompeu meu fluxo de pensamentos e seus braços me envolveram em outro abraço, fazendo meu corpo se aproximar ainda mais do seu, como se você estivesse tentando acabar com toda e qualquer distância que pudesse existir entre nós. Seus dedos passeavam pelas minhas costas, subindo até a minha nuca e explorando a região do meu pescoço sem pressa… Só que por algum motivo a sua boca ainda continuava muito longe da minha. Você tava arrependido? E se a resposta fosse sim, por que cargas d’água isso me incomodava? Eu devia estar erguendo as mãos para o céu e agradecendo por você aparentemente ter um pouquinho mais de juízo do que eu, não devia? Seu sorriso desapareceu e você voltou a me olhar daquela maneira meio desconfortável, como se estivesse tentando despir minha alma. A palma quente da sua mão repousou sobre minha coxa fria e eu involuntariamente me vi levando o dedo indicador até seu lábio inferior, traçando o contorno dele e recebendo uma mordidinha leve na ponta do dedo como resposta. Eu acho que meu coração voltou a acelerar dentro do peito.

Me beija você — Você sussurrou contra o meu rosto, e mais uma vez eu senti meu interior queimar e aquele formigamento estranho surgir na ponta dos meus dedos, acompanhado por uma tremedeira que eu tentava disfarçar sem sucesso. É que você parecia tão homem e eu tão menina, tão sem saber o que fazer em uma situação dessas, esperando que você pegasse na minha mão e me guiasse o tempo todo. Além disso, você parecia estar testando os meus limites, só pra ter certeza de que eu estava tão entregue quanto você. Tão entregue a ponto de colocar os pés para fora da minha zona de conforto e do meu mundinho confortável para me arriscar por você. Você me encarava quase que pedindo com o olhar pra eu tomar uma atitude que pudesse te provar que você tinha razão e que eu te queria também, e que era forte e madura o suficiente para assumir isso. E eu achei que valia a pena fazer isso. Que por você, valia a pena correr o risco.

Então eu te beijei. Uma, duas, três, incontáveis vezes. Beijei você até que o despertador desnecessário do meu celular, parecendo meio enciumado, resolveu atrapalhar as cariciais que nós dois trocávamos no sofá da minha sala, enquanto as ruas de São Paulo pareciam ganhar vida.Você disse que precisava ir embora, e isso me fez resmungar feito criança de cinco anos, pedindo para que você ficasse só mais cinco minutinhos.Só pra eu poder matar a saudade que eu já começava a sentir, antes mesmo de você ir embora. Você me deu um beijo demorado e depois disse que voltava, que voltava sempre que eu quissesse, e uma parte de mim sentiu vontade de soltar um:“Então nem vai embora, porque eu vou querer que você volte sempre… Fica por aqui, comigo.” Mas tudo que eu fiz foi te acompanhar até o elevador e te beijar mais uma vez, em uma tentativa desesperada de tentar gravar o gosto do seu beijo só pro caso de eu ficar tempo demais sem ele.

Você foi embora e o dia pareceu interminável, como se os ponteiros do relógio fizessem questão de trabalhar da maneira mais lenta que conseguiam, e cheguei até a pensar que eles estivessem fazendo um complô para que nosso reencontro tardasse a acontecer. Eu tentei terminar alguns trabalhos, lavei a louça da noite anterior, almocei com umas amigas e gastei a minha tarde inteira fazendo rabiscos no rodapé das páginas dos vários livros que passaram pelas minhas mãos e logo voltaram para estante. Concentração. Eu não conseguia nem mesmo definir essa palavra, porque a sua lembrança logo invadia meus pensamentos e atrapalhava meus raciocínios, fazendo com que minhas palavras ficassem embaralhadas e bagunçadas. As únicas imagens que pareciam não se confundir no meu cérebro, ainda abalado pelos acontecimentos da madrugada, eram as tuas. Por alguma ironia ou infelicidade do destino, as suas frases feitas iam e vinham dentro da minha mente completamente em ordem. O seu olhar, sua voz, seu cheiro e até as sensações do seu toque pareciam tão intactas que seu fechasse os olhos podia jurar que você já estava ali do meu lado de novo.

Meu celular tocou algumas vezes, mas nenhuma delas era você. Meu orgulho idiota parecia não estar com vontade de ceder, e no fundo eu até sentia vontade de agradecer por isso. Eu não queria ter que te mandar uma mensagem ou te ligar pra te dizer que sentia saudade, e que precisava te ver de novo. Sei lá, você não precisava saber que toda vez que você ia embora um buraco gigante se abria no meu dia, e me engolia… Você não precisava saber que eu ficava ali, escondida no escuro só esperando você voltar e me puxar pra fora da cratera que parecia forte demais para ser derrotada por mim. Só você tinha o poder de tapar ela, e me trazer de novo a superfície, e admitir isso era desnecessário. Assim como também era desnecessário admitir que meu corpo todo se encheu de vida quando meu celular vibrou ao lado dos meus livros e teu apelido apareceu no visor.

“Quero voltar pro seu sofá.”
“Tá esperando o quê?”

Eu tinha planos com o namorado esportista, e você ia levar sua namorada pra jantar fora, mas aí você resolveu me ligar e sua voz conseguiu acordar meu lado meio insano, que fez questão de mandar o orgulho pro espaço e te chamou pra sair.Perguntei se você queria dividir uma porção de batatas fritas e você gargalhou no telefone, dizendo que dessa vez você tava pensando em dividir outra coisa comigo, tipo a sua cama. Sabe quando você sente vontade de agradecer por não estarem vendo sua cara? Me vi na obrigação de fazer isso, porque eu podia jurar que o sorriso que eu tinha no rosto tinha um quê de paixonite aguda adolescente, misturada com a maior malícia do mundo, sem contar nas minhas bochechas que pareciam ferver. Você me disse que ia inventar uma desculpa pra sua garota e que chegava aqui em quinze minutos. Eu me vi fingindo uma tosse e uma rouquidão exausta no telefone, e jurando que tava tudo bem… Que também tava morrendo de saudades do meu garoto alpinista e que também me sentia triste por não poder sair com ele.

Você não deixou tempo pra culpa chegar e me fazer mudar de idéia, e eu jurei que um dia teria que te agradecer por ser sempre tão pontual. A gente saiu pelas ruas e você me levou pra um parque de diversões, dizendo que eu era uma garota que precisava se divertir e esquecer um pouco dos livros e dos problemas, e eu senti uma vontade irracional de abraçar você e dizer que você era minha definição perfeita de diversão. Mas, você continuava longe de mim, e eu não fiz nada pra mudar isso. Acho que você tava pensando a mesma coisa que eu. E se alguém visse nós dois? Trocando abraços, olhares, carinhos? Acho que era por isso que a idéia de segurar a sua mão tinha sido deixada de lado assim que você saiu do elevador do meu prédio, e desfez o nosso contato. Nem pensei em reclamar, porque você tava certo… E nessa relação nossa cheia de erros, achei que talvez fosse importante valorizar os pequenos “acertos”, ou algo assim.

— É bom ficar do seu lado — Você disse enquanto me puxava de uma barraquinha para outra, em uma tentativa sem sucesso de tentar ganhar alguma pelúcia que fosse maior que a palma da minha mão — É bom te ver sorrir também — Senti meus lábios se curvarem de maneira involuntária e você sorriu, aquele seu sorriso que se combinava com o seu olhar e que me fazia desejar ter te conhecido desde sempre.

— Me sinto uma adolescente delinqüente do seu lado.
— Mas é exatamente isso que você é, uma adolescente delinqüente. 
— Ei, por que? — Perguntei enquanto você tentava acertar outra argola em uma das garrafas. 
— Por que você ainda é uma adolescente… 
— Isso é mentira — Interrompi, vendo você torcer os lábios e pedir por silêncio. 
— Como eu disse, você ainda é uma adolescente… E, em segundo lugar, você é uma delinqüente, porque você tem roubado muita coisa minha.
— O que eu tenho roubado?

Você negou com a cabeça, silenciando e desistindo das argolas para me puxar pela mão para fora do parque. Eu reclamei, dizendo que ainda não tinha ganho minha pelúcia e você reclamou o dobro, dizendo que tinha planos melhores para nossa noite. Seu abraço quente e protetor tentava me proteger do vento frio enquanto você me guiava pelas ruas movimentadas, parando em uma pracinha meio deserta e iluminada por uma fileira de luzes coloridas que cercavam o lugar. Eu queria saber se você também sentia um friozinho desconfortável na boca do estômago quando o meu olhar encontrava o seu, ou se o meu perfume era o seu cheiro favorito — porque eu tinha uma grave impressão de que o seu era. Seus braços envolveram minha cintura e você beijou a minha testa, sussurrando algo que eu não entendi, talvez porque estivesse muito concentrada pensando em como as coisas tinham saído do controle.

— Não vai responder o que eu tenho roubado? 

— Não agora. Agora eu só quero te beijar, minha linda — Você disse baixinho, grudando sua boca na minha e me beijando pela primeira vez da noite. Tinha algo errado com a maneira que eu me sentia, como se o mundo ao redor de mim virasse pó e desaparecesse. Tinha algo errado com a maneira agitada que meu coração batia, e eu senti vontade de me castigar.Me castigar porque nenhum outro cara tinha conseguido me bagunçar tanto em tão pouco tempo, e sem se esforçar para isso. Na realidade, você não tinha a menor idéia do efeito que tinha sobre mim, e eu me via incapaz de explicar isso a você. Explicar que toda vez que eu te tinha, eu me sentia completa. Você chegava e todo meu interior entrava em conflito, se desesperava… Você me beijava e minhas paredes desabavam, meu chão sumia, meu teto parecia deixar de existir. Tudo, sem exceção, ficava fora de ordem quando você me tocava. Só que eu podia lidar com essa bagunça, é claro. Por mais devastada que eu ficasse toda vez que você estivesse por perto, eu sabia que era capaz de me reorganizar quando você tinha que ir… Eu sabia que tinha força suficiente para deixar tudo em ordem de novo e pronto, seguir com a minha vidinha e com a minha rotina, até você aparecer pra me bagunçar de novo. O problema mesmo é que eu tava amando. Tava amando essa desordem toda, esse amontoado de sentimentos e de emoções que se embaralhavam e se tornavam confusos, indecifráveis…Eu me paguei apaixonada pela minha bagunça, e com um medo doentio de ajeitar ela. É que tudo parecia tão perfeitamente posicionado, em seu devido lugar, e era como se tentar arrumar as coisas fosse um crime… Como se, por medo, eu preferisse deixar tudo assim, só pro caso de você não voltar mais. Só pro caso de você desaparecer, e eu ficar sozinha — sozinha, mas com a desordem que só você conseguia causar.

Você se afastou e ainda de olhos fechados sussurrou baixinho que me beijar era a melhor parte do seu dia. Eu retribui, dizendo que meu dia todo  só valia a pena por causa de você. Sua mão se entrelaçou a minha, e você escondeu o rosto no meu pescoço, fazendo questão de arrastar sua barba pela minha pele, me provocando. 

— Minha casa tá vazia — Você murmurou contra minha pele, beijando meu ombro. 
— E…? 
— E eu quero você — Outro beijo demorado na minha clavícula. Sua voz rouca e baixa estremecendo todo meu corpo, e me fazendo ter certeza de uma coisa. Eu não podia me apaixonar por você… E era exatamendo isso que eu andava fazendo. Me apaixonando pelos seus detalhes, pelas suas manias, pelos seus defeitos. É por isso que estar do seu lado não parecia tão errado assim… Porque errado, na verdade, era envolver sentimentos. Eu era a errada, a incorreta, o problema da relação. Eu era um erro tão grande, que todos os outros erros pareciam certos. Nós dois parecíamos certos. 

— Isso tudo é… Puramente carnal, certo? — Exclamei sem forças, tentando acreditar em minhas próprias palavras que pareciam — e eram — a mentira mais deslavada de todos os tempos. Mas eu precisava me convencer de que não havia sentimentos envolvidos nessa história toda — pelo menos não de ambas as partes. Você permaneceu em silêncio, e seu olhar desviou do meu por alguns segundos, se perdendo na escuridão atrás de nós. Eu devia ter falado, gritado que era mentira, é claro. Que podia até ser carnal, mas que eu sentia. Sentia demais, o suficiente para largar todo o resto só pra poder ficar com você, de uma maneira correta, sem medos, ou arrependimentos. E eu ia diz…

— Puramente carnal — Você concordou.  
(Eu e Você — Parte 3)


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originally belovesick · via welovebia

Eu e Você — Parte 2.

“Preciso te ver. Preciso te ver agora.”

Pensei em ignorar a mensagem, só pra te deixar meio apreensivo. Só pra você não pensar que eu tava desesperada pela sua presença, pela sua companhia. Mas, pra que? A verdade era justamente essa. Eu tava desesperada pra ouvir a sua voz, a sua risada, pra me perder no seu abraço demorado e protetor, e pra despejar sobre você todas as minhas frustrações semanais. Desesperada também pra perguntar como foi o seu dia e te ouvir contando sobre a nova música que você tava escrevendo, ou sobre uma manobra difícil que você finalmente tinha conseguido fazer sem errar e sem ganhar um roxo novo — acho que um dia eu ia criar coragem pra dizer que eu tava meio que encantada com um roxinho discreto que você tinha no canto do joelho, logo abaixo da barra da bermuda que você sempre usava. Talvez eu aproveitasse pra dizer também que a sua cicatriz embaixo do lábio, meio escondida, também era extremamente encantadora, assim como aquela pintinha que você tinha bem na palma da mão. Não, na verdade não tinha porque dizer que todos esses seus pequenos detalhes tinham me deixado meio que vidrada em você. Lá no fundo, eu não devia estar dizendo isso nem mesmo para mim, seja em pensamento ou em voz alta, consciente ou inconscientemente.

“Você tem meu endereço, não tem?”

Achei que isso bastava, e devia mesmo bastar já que em menos de trinta e alguns poucos minutos a campainha do meu apartamento, recém arrumado especialmente pra te receber, começou a ecoar pela sala apertada e escura. Eu não sei por que, mas a idéia de abrir a porta e te encontrar me deixou nervosa, meio aflita, meio mais-feliz-do-que-eu-realmente-devia-estar. Você tava sorrindo. Um sorriso tortinho, inclinado… Um boné escuro escondia seu cabelo e sua barba mal feita continuava ali, ainda por fazer. Sem palavra nenhuma você me puxou pra um daqueles seus abraços sufocantes que parecem deixar qualquer pessoa desestruturada, sem forças para se manter em pé e em equilíbrio quando você se afasta, ou talvez isso só aconteça comigo. Talvez seja só o fato de eu sentir meu mundo um pouco mais seguro quando você me tem nos braços, e a idéia de me afastar de você faz com que meu mundo volte a ser instável, como se estivesse tentando inutilmente se equilibrar em uma corda bamba. Como se fosse capaz de ler meus pensamentos, você não se afastou de mim e eu pensei em soltar um obrigada, tendo certeza de que você entenderia a que eu estava me referindo. De repente você tinha deixado de ser um estranho des-conhecido num bar, pra ser um estranho conhecido que parecia ser capaz de ler minha mente sem fazer esforço algum. E isso chegava a me dar medo, muito medo — Medo de que você fosse capaz de enxergar o que eu andava procurando esconder até de mim mesma.

— A gente ficou tempo demais longe, não acha? — Você perguntou enquanto se jogava no meu sofá camurça e me puxava para o seu colo, me fazendo repousar a cabeça no seu ombro quente. Intimidade demais, pensei. Afeito demais, carinho demais, tudo demais. Eu e você de menos. Nós demais. Nós que aparentavam ser tão bem feitos, tão firmes e que pareciam incapazes de ceder mesmo diante da maior de todas as forças. Nós que me mantinham amarrada a você, sem que eu fosse capaz de me dar conta disso um pouquinho mais cedo, quando ainda havia tempo de cortar as amarras e fugir. É que agora a idéia de interromper a nossa relação — e não sei exatamente a qual relação me refiro — parecia meio absurda, dolorida demais. Tudo isso porque eu tava gostando de ter você na minha vida. Gostando tanto de compartilhar meus dias e meus costumes com você, que eu nem me importava mais com a ideia de compartilhar também outra porção de batatas ou um suco de acerola. Digo isso pra não assumir que eu também não me importava em compartilhar um pouquinho da minha vida com você, porque isso já pareceria demais, não é?

— Você é um idiota que resolve sumir — Reclamei, escutando teu riso baixinho preencher a sala e meu interior — E quando você some, o que eu posso fazer? 
— Você pode me mandar uma mensagem dizendo que sente saudade, não acha?

— E quem disse que eu sinto saudade? — Negação. Dizem que a primeira etapa de todos os sentimentos é a negação. Você nega amar, nega odiar, sentir raiva, angústia, rancor, medo… Mas depois de tanto negar chega uma hora que você simplesmente cansa e explode, coloca tudo pra fora e grita que ama, odeia, sente raiva, angústia e tudo mais. Só que eu tava falado sério. Eu não sentia saudade — Talvez eu só não estivesse a ponto de explodir e assumir que eu sentia. Não ainda.

— Poxa, você podia ser um pouquinho mais carinhosa comigo, sabia? — Sua voz mimada e infantil fez meu coração se derreter feito manteiga. Aquele amargo do céu da minha boca adquiriu um gosto tão deliciosamente doce que eu podia jurar que estava me tornando uma pessoa diabética e que a razão disso era você, só você — São quase quatro horas da manhã e eu saí nesse frio, enfrentei todos os perigos das ruas de São Paulo só pra chegar até aqui e te fazer companhia, e você não pode nem mesmo assumir que sentiu saudade? 

— Eu não sei se posso assumir isso, mas posso afirmar com toda certeza uma coisa que eu acabei de perceber — Você me olha meio curioso, franzindo o cenho e mordendo o lábio de um jeito pensativo. Por que mesmo que eu ainda fico analisando cada um dos seus movimentos? — Você sentiu saudade por nós dois — Eu esperei uma risada alta seguida de alguma frase pronta, daquelas que você adora usar, mas não veio nada. Só um silêncio meio desconfortável, e um tom avermelhado que surgiu quase que instantaneamente no seu rosto, e que nem a barba conseguiu esconder. Por que você tava corando? Eu esperei a negação. Você tinha que negar, porque assumir que sentia saudade era como assumir que, sei lá… Que era recíproco. E você devia saber que reciprocidade era exatamente o que não podia haver entre nós dois. O que eu sentia você não podia sentir e assim seria melhor, mais seguro até.

— Tudo bem, como eu não sou uma pessoa orgulhosa e mentirosa, eu assumo que senti saudade dessa sua teimosa e dessa sua voz de sono, e de mais um monte de coisas que você não vai querer ouvir — Você se enrolou, e seu braço me envolveu com mais força, quase que com um gosto de posse, como se você estivesse tentando me dizer algo que eu já tinha percebido. 

— Agora vai ter que me contar. Sentiu saudade de que? — Deixei você desconversar e me contar sobre a sua tarde, sobre a corda mi do seu violão que tinha estourado de novo, e que tinha te deixado com uma baita dor de cabeça, porque a idéia de ficar sem tocar te deixava com um certo descontrole que você preferia nem me explicar, pra eu não pensar que você era algum tipo de maluco descontrolado com manias estranhas, e isso me fez sorrir. Me fez sorrir porque você falava sem parar, gesticulando com as mãos e fazendo comentários sobre a mobília do meu apartamento no meio dos seus assuntos variados. Falava de um jeito tão apressado e desconexo que eu até pensei que você tava nervoso, falando sobre as inutilidades do dia a dia pra não acabar falando sobre algo mais sério, quem sabe. 

— Mas, sobre o que a gente tava conversando mesmo? 
— Sobre sentir saudade — Relembrei. 
— Então, como ia dizendo, senti saudade de muita coisa, porque você sabe… Você é o tipo de garota que por algum motivo estranho acaba fazendo questão de aparecer em todo lugar, em todas as coisas, mesmo quando tá longe, sabe? Me ofereceram uma porção de batatas fritas e eu pensei em você, cara — Você riu, parecendo meio inconformado, como se isso não fizesse o menor sentido — E depois, meio que do nada, surgiram umas três ou quatro garotas que tinham o seu nome, e eu parei pra perceber que até as minhas blusas tinham um restinho do seu perfume — Você deu ombros, como se esse fosse o menor dos problemas. Quis interromper e dizer que as minhas blusas também pareciam ter o seu cheiro e que mesmo depois de lavadas, seu perfume meio amadeirado continuava lá… Intacto e teimoso, como se estivesse se recusando a ir embora e me deixar em paz. Eu não podia reclamar, porque cá entre nós, seu perfume era absurdamente delicioso — Então eu admito que senti saudade de sentir seu perfume assim, ao vivo… E que tava precisando te ver.

— Para com isso — Falei sem pensar, dando uma risada sem graça e desviando o olhar para a mesinha de centro da sala, coberta por papéis e um vaso de flores.
— Parar com que? 
— Com essa mania desnecessária de querer parecer apaixonante… Vai que dá certo eu me apaixono mesmo — A palavra apaixonar parecia ter saído num tom de voz inúmeras vezes mais baixo que o restante da frase, como se a as vogais e as consoantes estivessem tentando se agarrar a minha garganta para não transbordarem para fora da minha boca e formarem essa maldita palavra: Apaixonar. É claro que eu falei isso brincando, e fiz questão de deixar isso claro ao usar meu melhor tom de voz no estilo irônico-sarcástico-e-brincalhão. Eu não ia me apaixonar.

— E se você se apaixonar? 
— Eu não posso me apaixonar. 
— Por que não? — Você perguntou sério, sério demais. Tentei manter meus olhos fixos sobre a mesinha de centro mas seus dedos sorrateiramente foram parar em meu queixo, me obrigando a virar o rosto para encarar seu olhar castanho escuro, que conseguia sustentar o meu olhar de maneira estranhamente natural. Aquele medo estranho de que você conseguisse desvendar os meus segredos surgiu de novo, porque você me olhava de uma maneira tão intensa e profunda, mantendo um contato que parecia ser inquebrável, que eu jurei que você tentava buscar as respostas para sua pergunta dentro de mim, passeando pelo meu interior. 
— Por que eu já sou apaixonada, e você também já é apaixonado.

Você silenciou, como se fosse obrigado a concordar com a minha teoria e como se não tivesse nenhuma contra resposta, nenhuma frase feita adequada para o momento. Seu olhar se distanciou do meu, mas nossa conexão ainda parecia não ter sido desfeita, e tentei me convencer de que isso acontecia apenas porque seus dedos agora faziam um carinho gostoso na base do meu ombro, nos mantendo unidos de uma forma ou de outra. Você parecia pensar o mesmo que eu — que nós dois havíamos ultrapassado os limites. Eu não queria me sentir culpada, e nem havia motivo pra isso, não é? Umas amigas minhas certamente iriam sentir vontade de arrastar minha cara pelo asfalto quente se soubessem que eu estava jogada nos braços de um garoto skatista às quatro da manhã, pensando em como deveria ser bom ficar nesse conforto todas as madrugadas, sendo que eu deveria estar dormindo na cama de um alpinista obcecado pelos Alpes. Tentei me convencer de que essas amigas estariam certas e de que a errada nisso tudo era eu, só que eu não conseguia. Parecia tão certo eu permanecer ali, alinhada no teu colo, me deliciando com a sua respiração calma e ritmada que batia contra o meu rosto. Eu não consiga encontrar motivos que justificassem que algo me fazia tão estupidamente bem, pudesse ser errado.

Só que era. No fundo o meu lado racional sabia que era errado, porque não era só isso. Não era só a sua respiração, o seu colo ou o seu carinho gostoso. Tinha haver também com os seus ombros largos, — que por algum motivo, pareciam mais atraentes agora do que quando descobertos pela regata branca que você vestia naquela terça — com o seu cabelo meio sem corte, com o seu olhar penetrante que trazia a tona o que havia de mais intenso e profundo em mim. Tinha haver com as suas costas e com esses pensamentos impróprios de que minhas unhas vermelhas iriam combinar perfeitamente com os contornos dos seus músculos. Sem contar nessa sua barba mal feita que parecia continuar presente no seu rosto com a única intenção de me perturbar e de alimentar meus devaneios e minhas noites de insônia, baseadas nessa vontade doentia que eu andava sentindo de sentir essa sua barba arranhando a pele sensível do meu pescoço — É, eu admito. Eu assumo que venho pensando nisso com muita, muita freqüência. E, por mais que me enlouqueça pensar nisso, tinha também haver com um formigamento estranho que surgia na boca do meu estômago quando eu me perguntava qual devia ser o gosto do seu beijo, e logo depois me perguntava de maneira impaciente quando é que eu iria obter essa resposta. Fora esses pequenos problemas e desvios que haviam surgido pelo percurso, o resto estava completamente tranqüilo. Só que pensando bem não havia nenhum resto, porque tudo era você. Você pela manhã, durante a tarde, pela noite, invadindo a madrugada.

— Você mexeu pra caralho comigo — Sua voz me pegou de surpresa e suas palavras ainda mais. Acho que você abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas eu interrompi. Eu tinha que interromper antes que você acabasse falando exatamente aquilo que eu queria ouvir, e que me tornaria fraca, me faria ceder — É, é… Eu sei que é errado — Você respondeu, desanimado. Eu queria te jogar pra fora do apartamento, te mandar para dentro do elevador e colocar você na rua. Queria te observar indo embora da minha rua, da minha casa, da minha vida. Eu podia muito bem voltar a viver só com as minhas noites solitárias de terça, com o gosto amargo da minha boca e com aqueles pacotinhos de açúcar, que seriam o suficiente para adocicar a sua ausência. Eu queria poder voltar no tempo, me teletransportar para aquela terça feira passada, e então eu teria mandado você tirar as mãos das minhas batatas fritas e voltar para sua mesa. Eu queria que você tivesse sido apenas um cara meio louco num bar. Mas, mais que tudo isso, eu queria te xingar e te encher de tapas e socos e arranhões por você estar arrancando as palavras da minha boca. Eu queria dizer que se você também quisesse, a gente podia arrumar um jeito de fazer esse errado ser um pouco menos errado, por mais complicado que isso pudesse ser. Queria até mesmo dizer que eu tava disposta a chutar o balde e a terminar com dois anos de um namoro estável e auto-sustentável só pra descobrir qual era o maldito gosto da sua boca — O que a gente faz agora?

— Espera isso passar — Era simples. Nós dois iríamos nos despedir como se não houvéssemos tido nenhum tipo de conversa constrangedora ou traumática. Você me daria um beijo demorado na bochecha e eu tentaria não pensar que teria sido um tanto prazeroso se você tivesse errado o beijo e acertado minha boca. Daí então eu iria para minha cama, ignorar a minha insônia e tentar disfarçá-la com uma xícara de pura cafeína e minha pilha de livros sobre as doenças pulmonares. Eu gastaria horas e mais horas admirando aqueles textos e aquelas fotos, e o cheiro mofado do livro, e só então pararia para pensar em você. Você estaria na sua casa, jogado na sua cama usando apenas uma bermuda e suas meias brancas, e estaria assistindo a algum programa idiota na tv. Você pensaria em mim, e então tentaria se livrar desses pensamentos fazendo outra coisa, como, por exemplo, indo comprar algumas latinhas de cerveja para beber sentado na calçada ao lado de um amigo. Os dias iriam passar e virar semanas, e assim como eu, você perceberia que toda essa idéia de eu estar mexendo com você não havia passado de uma fantasia da sua cabeça. Eu iria me dar conta de que os seus braços não eram nem de longe o meu lugar preferido no mundo, e pronto. Tudo estaria terminado. Se eu e você déssemos sorte, até mesmo os nós poderiam ser desfeitos, assim como o nós.

— Mas eu não quero que isso passe — Deveria ter sido simples. Será que você não sabia o roteiro, não tinha decorado as falas? Por que você insistia em fugir dos padrões? Em optar pelos caminhos mais tortuosos e arriscados? Será que você não conseguia ver que eu não pretendia sair da minha zona de conforto, mas que eu era extremamente difícil me manter nos trilhos quando você me esticava a mão e me pedia para caminhar ao seu lado? — E eu não pretendo deixar isso passar.

— É errado — E meu objetivo nem era mais te convencer disso. A única pessoa insana o bastante que parecia não estar entendendo o significado da palavra errado era eu mesma, porque meu corpo ainda continuava perto demais do seu, e isso ainda parecia muito certo. Tão certo que nem mesmo minhas mentiras sempre tão eficientes tinham forças para vencer essa verdade inevitável. Eu e você parecíamos ser o certo.
— Isso é o que te impede? Eu quero você, e eu sei que você também me quer — Você alterou seu tom de voz, parecendo disposto a me convencer disso — mal sabia você que eu já estava convencida, e que minha vontade era calar logo a sua boca com um beijo. Só que o cara de pau dessa história toda era você, por isso eu repetia baixinho, pedindo para você perceber que nas entrelinhas, eu tava praticamente gritando e pedindo por você. 

— Mas é errado! Entende isso, por favor! 
— Então eu faço o errado parecer certo — Eu senti um arrepio descer pela minha coluna e se espalhar por todo meu corpo, quase que ao mesmo tempo em que seus braços me puxavam para mais perto do seu corpo, e seu olhar magnético desafiava o meu. 
— E como você pretende fazer isso? 

(belovesick: Eu e Você — Parte 2)


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Eu e Você — Parte 1.

Ainda me pergunto qual o tipo de pessoa que costuma matar uma noite solitária de terça feira em uma mesa de bar, acompanhada por uma porção de batatas fritas, um suco de acerola e uma pilha de livros sobre os-mistérios-fantásticos-da-medicina. Mais que isso, me pergunto que tipo de pessoa consegue se concentrar no pacotinho de açúcar por mais de cinco minutos, sem desviar a atenção para as risadas altas que escapam da mesa do lado. Um espelho estrategicamente posicionado à minha frente parece ter a resposta. Mas, o que uma garota de dezoito anos, caloura, abandonada por um namorado que preferiu viajar para esquiar com os amigos do que passar a semana de feriado ao lado da namorada, poderia fazer em uma situação dessas? Admirar o açúcar empacotado parecia perfeito.

— Ei, eu não vi a foto! — Uma voz estridente gritou na mesa do lado, interrompendo meu momento afetivo com o açúcar. 
— Que pena — Você respondeu de forma até simpática, dando ombros — ombros largos, musculosos, expostos pela regata branca que se destacava sobre a bermuda escura e os vans pretos.

“Oh, eu também não vi a foto” Sussurrei para a batatinha solitária que repousava sobre o lado do prato.

— Ei…

Não que eu estivesse interessada em cuidar da vida alheia ou em reparar que a garota que segundos atrás estava na mesa, agora se dirigia para fora do bar. Claro que…

— Ei — Você repetiu, e minha lerdeza pós-segunda-feira pareceu ceder um pouco, me deixando perceber que seu olhar se demorava sobre o meu. 
— É comigo? — Estúpida. Olhei em volta percebendo que, além de mim e do garoto de ombros largos, haviam apenas alguns funcionários. 
— Você disse que não viu a foto — Não, eu sussurrei… Não foi? Em um piscar de olhos sua cadeira estava posicionada em frente a minha, e minhas batatinhas passavam dos seus dedos marcados por tatuagens para sua boca, que exibia um sorriso desleixado — Bom, pra você eu mostro quantas fotos você quiser.

Sua voz me deixou com vontade de sorrir, e acho que foi isso que eu fiz já que um sorriso vitorioso cresceu no teu rosto parcialmente coberto por uma barba mal feita. O pacotinho de açúcar voava de uma mão para outra, adquirindo a forma de uma bolinha papel, e contendo uma mensagem meio subliminar, que você parecia não ler — e que eu interpretei com sendo nervosismo. Puro nervosismo. Pensei em me levantar e tomar a mesma atitude da garota anterior, e depois pensei em pedir educamente para que você retirasse as mãos de minhas batatinhas e voltasse para seu devido lugar. Mas, pensamento maior foi o de que era fim de terça feira. Uma terça feira exaustiva e solitária, e de que você era só um estranho em um bar que parecia disposto a gastar uma meia dúzia de palavaras com uma estranha qualquer, disposta a receber essa meia dúzia de palavras e retribuí-las com mais uma dúzia, quem sabe.

— Então tá bom, me mostra essa tal foto — Pedi, dando um gole longo no suco amargo de acerola. Você abriu a carteira e puxou um pedaço de papel meio envelhecido, deslizando-o sobre a mesa em direção a mim. Analisei a foto, decorei a borda amarela e comida pelas traças do tempo… Simpatizei com o olhar sapeca do garotinho que parecia se divertir em cima de um skate azul-desbotado — É você?
— Isso depende. Você achou ele bonitinho? 
— Aposto que nessa época você não tinha essas frases prontas — Você deixou uma risada alta escapar, e eu fiquei hipnotizada com o fato do seu olhar se combinar perfeitamente com o teu riso, como se estes fossem a combinação mais harmônica de todas. 
— Isso vem de berço, minha linda.

Conversa vai, conversa vem. O prato antes cheio ficou vazio, o suco de acerola, que depois de ser atacado por você, logo desapareceu e a terça-feira adentrou na quarta. Um funcionário baixinho e careca educamente e meio que sem jeito disse que estava na hora de fecharem, e você me puxou pra fora do bar, jogando um moletom cinza sobre minhas costas e carregando meus livros embaixo do braço. A gente seguia meio sem rumo, desvendando as ruas desertas e escuras mergulhadas na madrugada silenciosa, que vez ou outra era tomada pela tua risada sonora, e por uns suspiros perdidos meus.

Você aproveitou o final de um assunto e então reclamou da namorada, que tinha viajado a trabalho pra Nova York, e que não ligava fazia três dias. Eu aproveitei pra reclamar do namorado que me mandara uma mensagem pela manhã me contando sobre como os Alpes Suíços eram maravilhosos — e sobre como ele havia esquecido de dizer ao menos que sentia minha falta. Você debochou, dizendo que neve era uma coisa sem graça, e que Nova York andava fora de moda. Aí a gente se pegou rindo sem parar, chegando a conclusão de que a poluição visual, sonora e aromática de São Paula era uma centena de vezes melhor. 

— A sua companhia também é bem melhor que os Alpes idiotas. 
— Eles são maravilhosos — Ironizei, dando um soquinho no seu braço como se fossemos dois amigos de longa data, conhecidos de vidas passadas, quem sabe. Você silenciou e ficou me encarando, sem desviar o olhar… Parei pra pensar em como eu podia ser tão idiotamente inocente a ponto de estar sozinha com um estranho em plena madrugada de quarta-feira de cinzas. A hora do juízo aparecer e me mandar correr para longe de você parecia estar mais atrasada que os ponteiros do meu relógio.

Você não tinha hora pra chegar em casa, e eu tinha que estar em pé as sete. Seu café da manhã era um pão com presunto que serviam na padaria que ficava na esquina da sua casa, e o meu era uma tijela com salada de frutas, servida exatamente as oito e quinze. Sua quarta ia ser vazia. “Vou tocar um violão, tentar umas sessions de skate, ir atrás de algum amigo pra ver o que rola…” — Você disse, parecendo despreocupado. Eu ia pra faculdade, mergulhar na biblioteca, chegar ao nível três sobre os fascinantes componentes da vida celular… Ia comer uma coisa barata na cantina verde e amarela, e depois ia voltar pra casa com uma pilha nova de livros, prontinha para relaxar sobre a cabeceira da minha cama. 

— E depois de amanhã? — Você perguntou, ainda meio assustado depois de ouvir sobre meus dias complexos e repletos de nerdice. Pensei em dizer que ia fazer o mesmo, repetir a dose, você sabe… Mas o teu olhar meio inquieto me fazia pensar que depois de amanhã, talvez, você fosse ficar de bobeira e a ideia de ficar de bobeira numa sexta, pós feriado, parecia extremamente atrativa. 
— Eu vou ficar de bobeira. 
— Quer ficar de bobeira comigo?

Eu esperei um alarme, uma sirene estridente e descontrolada ecoar dentro da minha cabeça… Esperei um sinal de fumaça, um reflexo de luz, uma placa de pare diante dos meus olhos. Esperei aquela vozinha chata da razão, dizendo que era para eu usar aquela palavrinha negativa e curta com acento tio. Não veio. Não veio fumaça, não veio placa, não veio sinal nenhum me alertando que aquilo errado. Que era errado ficar de bobeira com um desconhecido já-não-tão-desconhecido, e que eu tinha motivos de sobra para deixar as coisas assim, pela metade… A gente se conheceu numa mesa bar, a gente se despediu numa rua deserta e fim, mais nada. Às vezes é melhor deixar as coisas assim, na simplicidade, de maneira natural. É melhor forçar um fim logo de início, do que ter que aceitar um fim que chega lá, no próprio fim. E eu, por experiência própria, sabia que esse segundo fim iria doer. Era melhor eu lembrar de você como o garoto cara de pau que roubou a minha janta e salvou a minha terça, do que como o garoto com quem eu passaria a tarde de sexta de bobeira. Só que, cá entre nós, como é que eu podia dizer não pra você? Você que me olhava com todo receio do mundo, como se estivesse quebrando os próprios limites, e como se apenas um sim meu pudesse te fazer relaxar e voltar a ser aquele menino descontraído de antes.

— Aonde eu te encontro? 
Você sorriu.

A sexta passou, o sábado veio logo depois, e o domingo logo deu lugar a segunda, que foi substituída pela terça. O ficar de bobeira na sexta se estendeu até domingo, e ainda assim na segunda você deu um jeitinho de aparecer no meu almoço, com a desculpa de que tinha esquecido de perguntar quando a gente ia se encontrar de novo. Eu digo desculpa porque a ideia de fugir e ir atrás de você, só pra fazer essa mesma pergunta, tinha sido a única desculpa em que minha mente conturbada havia sido capaz de pensar. Mas você sabe, eu era certinha demais e cara de pau de menos para te procurar assim, do nada… Mas meu ser inteiro vibrou de felicidade quando se deu conta de que você — você e seu sorriso meio maroto, seu olhar misterioso, combinando com a barba mal feita e com o alargador — conseguia ser cara de pau por nós dois. 

Mesmo assim, depois desse nosso encontro durante meu almoço de quinze minutos, você sumiu. Mandou mensagem dizendo que a namorada tinha voltado, que queria atenção e completou com um “você sabe como são essas mulheres.” Eu até ri disso, mas depois senti aquele gostinho amargo no céu da boca. Não tinha nada a ver com o suco de acerola, que isso fique claro. O problema é que eu tava querendo atenção também, e o problema ainda maior que o próprio problema, e que essa atenção tinha que ser a sua. Pensei naquele pacotinho de açúcar e até me vi caçando alguns deles pelos restaurantes e bares em que eu passava… Tentei adoçar a vida e o gosto estranhamente amargo que a sua ausência tinha, mas o açúcar nem parecia mais tão milagrosamente doce assim.

O namorado dos Alpes Suíços Maravilhosos tinha voltado, e trazido consigo toda a saudade reprimida que não tinha extravassado nas mensagens diárias. Ótimo, eu pensei. Tentei ocupar meus dias com outras coisas, mas até nas coisas mais banais eu te encontrava. Me chamaram pra andar de skate, e eu pensei em você. Me convidaram pra ir em um barzinho, comer uma porção de batatas fritas, mas eu desanimei porque agora até as batatas engorduradas tinham perdido a graça. A verdade é que toda terça feira tinha um gostinho ruim se você não fazia parte dela — e me restrinjo as terças-feiras para não citar as quartas, quintas, sextas e o resto da semana. Ninguém precisava saber que minha rotina parecia ter se reescrito tão bem só pra suportar a sua presença diária.

Mais uns três ou quatros dias sem notícias suas, e meu celular resolveu dar algum sinal de vida no meio da madrugada. Na hora eu até esqueci que aquele toque era exclusivamente seu, e acho que foi por isso que não saltei da cama para correr até o celular, perdido entre livros e canetas. Eu já nem esperava mais um sinal de vida seu, ou qualquer coisa do tipo. As 2:45 da madrugada era mais provável que alguma amiga bebada estivesse me mandando confissões sobre como havia sido incrivelmente bom experimentar o banheiro da boate, ou até mesmo a própria operadora me convidando para baixar o toque mais popular do momento, algo como Aí Se Eu Te Pego, sei lá. A questão é que era você. Era você e isso servia perfeitamente bem para combater aquele amargo. Era como se você fosse o antídoto para curar seu próprio veneno, que agora parecia se alastrar por minhas veias. Tinha algo errado nisso tudo, não tinha?

“Preciso te ver. Preciso te ver agora.”

(belovesick: parte 1)


2 weeks ago · 220 notes reblog
originally belovesick · via welovebia
“Depois de um tempo você percebe que chorar não muda as coisas. Percebe que permanecer trancada no quarto, encarando o teto e esperando as coisas melhorarem, não faz com que os ponteiros do relógio parem ou se movam para trás. Percebe que noites em claro não são a solução para se livrar de sonhos ou pesadelos, pois estes te perseguem mesmo quando está de olhos abertos. Depois de um tempo você percebe que cortes no pulso não tornam o dia mais bonito ou mais claro, e que giletes não servem como antibióticos-contra-dor-interna. Percebe que a indiferença dói, mas não mata. Que um coração partido, nunca volta a ser o mesmo de antes, e que uma vez quebrada, a confiança não se regenera. Um dia você entende que chega uma hora na qual lutar se converte em sua própria derrota. Uma hora em que desistir, deixar partir, fugir, é a única alternativa. Você percebe que há momentos que duram uma fração de segundos, mas podem causar danos que durarão décadas. Depois de um tempo você entende que a palavra desistir é relativa, que o verbo esquecer é involuntário, e que amor nem sempre é plural, e que quando singular, dói. Você então percebe que a mês após mês, dia após dia, hora após hora… Você percebe que o tempo não é constante. Percebe que ele muda, que ele passa depressa, e que vai eternizando momentos, arrastando lembranças, sequestrando pessoas. Você percebe que mesmo sem viver, você sobrevive… Mesmo sem querer, você segue. Então percebe que quando esse “depois de um tempo” chega, você não sabe o que fazer. Percebe que talvez, nunca saberá. (15:33, belovesick)”

belovesick:

E você sempre dizia: Se desapega, menina.
E eu, com um sorriso doce no rosto desconversava, desviava o olhar para alguém que passava na rua e voltava então a encarar nossas mãos entrelaçadas. E, temeroso, você repetia aquela sua frase tão clichê, à favor de um desapego menos doloroso, mais tênue. Eu não entendia. Não até o momento em que soltar a tua mão se tornava obrigação, e eu sentia meus músculos involuntariamente pedirem pelos teus de novo. Você, com lábios retorcidos, se despedia. E com a voz perdida sussurrava: Se desapega, menina. Não me desapeguei, pelo contrário. Cada novo dia, era um novo pedaço meu que ficava em seus cuidados quando nos despedíamos. Até o dia em que não havia mais despedidas, pois não havia mais você. E o apego também já não encontrava-se ali. E o desapego era o resto, tudo que sobrara… E no silêncio que restara, relembrei: Se desapega, menina.


belovesick:

Nós poderíamos ser o melhor casal de todos. Poderíamos compartilhar segredos, sorrisos, sussurros, lágrimas, momentos bons ou ruins. Poderíamos dividir um apartamento, e dormir na mesma cama, sem deixar espaço algum vazio… Nos esquentaríamos durante a noite fria, passaríamos a madrugada conversando sobre coisas sem nexo, apenas para que eu pudesse ouvir sua voz, e você pudesse se apaixonar ainda mais pela minha. Se você se permitisse, nós poderíamos dormir sob as estrelas… Ou talvez assistir à um pôr-do-sol em uma praia qualquer, e depois sair para um jantar romântico a luz de velas. Você poderia cozinhar para mim, e se esse seu dom falhasse, poderíamos pedir comida e passar a noite esparramados no chão da sala, você dando comida na minha boca e eu na sua. Eu não me importaria nem um pouco de vestir suas camisas pela manhã, ou de levar café na cama para você… Nossas escovas de dente poderiam ocupar o mesmo lugar, e nossas coisas poderiam ficar misturadas, como se jamais fossem precisar se separar. Eu poderia colocar um sorriso no seu rosto todas as manhãs, ao sussurrar no seu ouvido juras de amor… Ou arrancar suspiros seus todas as noites, com minhas provocações desajeitadas mas encantadoras… Nós poderíamos ser o ontem, o hoje e o amanhã. O sempre, o infinito, o inacabável. Nós poderíamos ser tudo, bastava você querer…


Eu estou ótima. Não penso em você 24 horas por dias e nem mesmo sinto sua falta. Meu coração está inteiro, e não dói. Não choro faz meses, meus pulsos não estão cortados, e sorrio todos os dias. São sorrisos verdadeiros, que não escondem nada. Minhas noites são não interrompidas por lembranças nossas, e muito menos meus dias. Na verdade, você não faz parte deles. Me perguntam se estou bem, e oras, é claro que estou bem. Estou ótima. Não me sinto vazia. Não sinto vontade de sumir. Não conto os dias desde que você se foi, e não fico revivendo nossos momentos em minha cabeça. Não fico esperando que você volte. Definitivamente não. Não preciso de você. Não preciso do seu amor. Posso viver sem isso. Posso viver sem você, e seguir em frente. É o que estou fazendo. Eu estou bem.

Eu não te amo.

(1-de-abril)